A
segunda metade dos anos 2010-2020, com provável continuidade nos anos 2020-2030,
tem tudo para ser um remake dos anos
1990. Social-democratas com responsabilidade pela racionalidade macro-econômica
e administrativa (Macri na Argentina, Aécio no Brasil) assumem o poder na
América Latina sucateada (termo dos anos 1990) por governos anteriores heterodoxos-patrimonialistas-esquerizantes
e implementam tímidas reformas liberais.
Pois foram tímidas as reformas “neoliberais” dos anos 1990. Para os liberais de
pura cepa, privatizou-se menos do que se devia, destaxou-se menos que o
desejado, enxugou-se a máquina estatal menos que o nescessários, pois os
governos não tiveram forças suficientes para enfrentar os interesses
corporativistas em jogo dos estado-dependentes ou mesmo não queriam enfrentar,
por amor ao intervencionismo e assistencialismo social-democrata. Mas fez-se o
mínimo necessário para tirar o país da lama. Paulo Francis, por exemplo,
acusava insistentemente FHC de ser molenga.
A
volta dos “neoliberais” (um exagero retórico esquerdista, pois de liberais
estes governos tem muito pouco) é a volta de governos que fazem ajuste fiscal meia-bomba,
botam de pé o tripé macroeconômico, privatizam um pouco, enxugam a máquina de
forma tímida e abrem relativamente o mercado. Mas, inobstante a tibieza do
caráter liberal de suas ações, são acusados pela esquerda de neoliberais (um termo
dos anos 1990 ressuscitado na campanha de 2014 que promete voltar com toda a
força), capachos dos interesses do grande capital, títeres do imperialismo
norte-americano, do Consenso de Compadre Washington, e por ai vai.
Se
um governo “neoliberal” nos tomar de assalto eleitoralmente, como ocorreu
recentemente na Argentina, a faxina da vampiragem burocrático-patrimonialista
no Brasil será, todavia, uma tarefa incomparavelmente mais hercúlea que no país
de Maradona: vai ser preciso varrer, de um contingem de 113 mil comissionadosnos Ministérios, que consomem 214 bilhões do Orçamento, um número bastante
elevado de marajás (termo dos anos Collor).
Obviamente,
não precisamos esperar que um governo chuchu tucano faça a reforma administrativa
de forma ampla e irrestrita (expressão da época da Ditadura Militar). Mas temos
agora uma novidade. A novidade é que há uma massa de contestadores liberais na
mídia, na internet e não apenas meia dúzia de autores isolados e institutos
liberais com força idêntica aos dos rotery clubs do interior. O futuro governo
chuchu-social-domocrata-fabiano- liberal- meia-boca vai enfrentar um inferno
muito maior do que sofreu o governo FHC, com intensos ataques às esquerdas e às
direitas. Passeatas de 100 mil às esquerdas e às direitas. Blogs, blogs, blogs,
às esquedas e as direitas. Dossiês caymans às esquerdas e às direitas.
A
direita true neocon também não
deixará em paz o futuro governo
chuchu-social-democrata-fabiano-liberal-meia-boca acusando-o de dar estar
vendido ao esquema globalista, dar dinheiro aos sem terra e ao movimento gaysista,
de manter o estamento burocrático-gramisciano (o que será verdade em parte) e
de passar a mão na cabeça do Foro de São Paulo que só estará saindo de cena
taticamente para reorganizar suas divisões e voltar mais forte, a guisa dos
nacionalistas alemães após a Primeira Guerra.
Acossados
por ambos os lados do radicalismo ideológico não restará ao nosso futuro
governo chuchu-social-democrata-fabiano-liberal-meia-boca permanecer onde todos
os governos brasileiros costumam permanecer: no extremo-centro, fazendo
pequenos avanços e conservando as velhas mazelas, as quais direitas e esquerdas
têm certa razão de denunciar.