segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

A BIOGRAFIA DO VERKOVENSKI CAIPIRA E AS ILUSÕES ARMADAS

O menino que, em meados da década de 1950, teve a ousadia de se declarar agnóstico para a sua tradicional família mineira, e que não via a hora de deixar o tédio de Passa Quatro, só aliviado com traquinagens pour empater les campagnards, tornou-se, inegavelmente, um dos agentes políticos mais influentes das últimas cinco décadas no Brasil, sempre presente no palco dos acontecimentos políticos mais significantes, embora seu legado tenha sido extremamente negativo.

Como não? Mal chegou a São Paulo, vindo de uma comunidade insignificante, logo e tornou-se presidente da União dos Estudantes de São Paulo no período crítico dos primeiros anos da Ditadura Militar. Namorou a revolucionária comunista mais afamada de nossa História, nossa Jesenska-Pollac, Iara Iaverber, bela e disposta a matar, que mais tarde se tornaria esposa do segundo revolucionário mais famoso, Carlos Lamarca. Após o AI-5, comandou, juntamente com Vladmir Palmeira, em 1968, um congresso estudantil clandestino, em clima e paisagem de Woodstock, do qual resultou o maior comboio de estudantes presos da história nacional. Preso, era tão importante para o movimento revolucionário que foi um dos trocados pelo embaixador americano Charles Elbrick, num dos episódios icônicos do período, o maior êxito do movimento revolucionário e o maior vexame da Ditadura Militar. Deportado para o México, logo se tornou íntimo do Comandante e despertava a inveja de seus companheiros pelos privilégios. Era então um dos principais soldados do movimento revolucionário comunista mundial na América Latina. Retornou ao Brasil e viveu aqui, clandestinamente, a maior parte de década de 1970, sua década perdida, na qual não fez nada de relevante ao que se saiba, tirante a façanha de ter permanecido vivo, quando a maioria dos exilados que voltaram foram executados sumariamente pela “tigrada”, fato que gerou mais suspeitas entre os companheiros de que pudesse ser informante. Mas eis que veio a anistia, deu bye bye para a bela loira do interior do Paraná com quem vivia em concubinato escondendo-lhe a verdadeira identidade e retornou ao centro dos acontecimentos.

Em janeiro de 1980 dá-se um dos encontros mais decisivos e emblemáticos da história recente do país: Frei Betto leva-o para conhecer Lula. Foi naquela tarde em São Bernardo do Campo que a estrela começou a subir. As três figuras representam três das quatro forças sociais fundamentais na fundação do PT: o movimento revolucionário comunista, a dissidência católica da teologia da libertação e o movimento operário, representado ali pelo seu comando supremo, “O Clube do Mé”. Faltou apenas um Professor marxista da USP ou UNICAMP. Daí em diante, o Zé, que teve as mãos amarradas durante todos os anos 1970, nadou de braçada: foi o principal responsável pela criação da máquina partidária mais poderosa e mais profundamente enraizada na sociedade civil do país. Neste encontro histórico, a virtú de Zé Dirceu encontrou sua fortuna. Prosseguiu: foi um dos responsáveis por quase eleger Lula em 1989. E só não logrou elegê-lo porque Lula, em razão de “pureza” ideológica, não aceitou as alianças que Dirceu propunha com gente sórdida do PMDB. Eleito deputado federal, era tido no início dos anos 1990 como um dos bastiões da ética do país, herói do combate à corrupção. Duelou duramente com o apologeta de Collor, Roberto Jefferson. Investido hipocritamente neste papel de udenista-petista, foi um dos principais responsáveis pela queda do primeiro Presidente da República eleito pelo voto direto e de diversos deputados federais. Pari passu, montava já um vasto esquema de finaciamento público ilícito de seu partido, sem o qual a agremiação não chegaria ao poder. Nas horas vagas aproveitava para casar e descasar, dedicando-se também a diversas relações extra-conjugais. Atazanou o quanto pode os governos Itamar Franco e Fernando Henrique.  Foi um dos inventores do Fora FHC/Fora FMI que em 1998/2001 era o Fora Tudo das manifestações de junho de 2013. Elegeu Lula em 2002.  Tornou-se o único Ministro da Casa Civil com poderes de Primeiro Ministro, a ponto de Lula reclamar: “O Zé Dirceu acha que o Governo é dele.” Tinha o poder de nomear e exonerar quem quisesse do primeiro escalão do governo.  Até que caiu em desgraça em 2005, quando seu rival do início dos anos 1990, flagrado na via do reprochável, resolveu alcaguetar o esquema de financiamento público ilícito do PT e o esquema de compra de consciências partidárias nada lincolniana. Por muito pouco, não cumpriu a promessa que fizera a sua mãe, Dona Olga: a de vestir a faixa de Presidente da República.

Tudo isso é narrado em detalhes na biografia “Dirceu” (Editora Record, 2013) de Otávio Cabral. O livro, como é do início deste ano, não termina com a prisão do nosso Verkovenski de sotaque caipira, mas com duas cenas prosaicas e ternas: numa, Dirceu com a mamãe, velhina, no interior de Minas; noutra ele fazendo a filha ninar através do skype. Mas, antes do fim, temos uma cena de coluna social muitíssimo interessante: o agnóstico José Dirceu, logo após a cassação de 2005, viaja a Santiago de Compostela na companhia de Fernando Morais e Paulo Coelho. Mineiro debochado, se colocou a fitar com um sorrisinho sardônico o mago falando de suas bruxarias.

Não há como negar: desde sua suspeita eleição para a UEE de São Paulo, em 1966, até 2005, Zé Dirceu sempre meteu a mão em nossa história e deixou digitais. Se a história humana é feita pelas decisões de seres humanos concretos, na linha de Max Weber, e não por forças abstratas, na linha Hegel, Marx e Braudel, ele é, desde 1960, um dos principais co-autores da triste história destas plagas. Dificilmente o PT, a máquina partidária mais poderosa do país, teria se tornado tão forte sem ele. Diante desta constatação, é indubitável que se trata de uma das biografias políticas mais importantes dos últimos 50 anos, ainda que para ser apresentada à juventude como exemplo do que não fazer.

Mas, certamente, o Zé não terá melhor sorte no tribunal da história do que a que teve perante o STF. A não ser que queiram forçar a barra e transformá-lo num Mirabeu de Ortega y Gasset, ou coisa semelhante.

Em seu opúsculo, “Mirabeau, ou o Político”, o filósofo madrilenho, vaca sagrada dos conservadores, faz sua apologia deste ícone moderado da Revolução Francesa. Mirabeau, como Dirceu, fez o diabo. Corrompeu, fez vergonhas financeiras, mentiu, trapaceou, mas por um motivo nobre: alcançar uma posição política privilegiada para defender uma Monarquia Constitucional que pudesse colocar freios ao Terror, ou, nas palavras de Gasset, fazer a revolução e a contra-revolução. Progredir e conservar. Mas, uma vez que o caminho de Mirabeau ao Palácio foi bloqueado, ele “inveredou pelo secreto e pelo tortuoso.” Homens excepcionais assim, “magníficos animais”, defende Gasset, estariam dispensados da moralidade comum ou da pequena moralidade:

“Em vez de censurar o grande homem porque lhe faltam as virtudes menores e padece de pequenos vícios, em vez de dizer que ‘não há grande homem sem virtude’, em vez de concordar com o homem comum, seria oportuno meditar sobre o fato, quase universal, de ‘não há grande homem com virtude.”

Lincoln comprou consciências no Capitólio para aprovar a 13ª. Emenda e abolir a escravidão. Mas qual era o motivo nobre de Dirceu para fazer o que fez? Nas primeiras décadas, era o Cubão. Depois, o que? A justiça social? O Bolsa Família? O fim da pobreza? Falta-lhe o motivo nobre ou a sua consumação para que a história o absolva como um Mirabeau de Ortega y Gasset. Sobra apenas a libido dominandi. Uma vasta história de fraudes sem nenhum grande resultado.

Mas essa relevância histórica toda que atribuo a Zé Dirceu não aparece na obra mais vívida sobre os anos de chumbo lançada na última década: a tetralogia de Elio Gaspari, compostas pelos livros “As Ilusões Armadas ou A Ditadura Envergonhada”; “As Ilusões Armadas II ou A Ditadura Escancarada”; “O Sacerdote e o Feiticeiro ou A Ditaduta Derrotada” e “O Sacerdote e o Feiticeiro II ou A Ditadura Encurralada”. Os dois primeiros de 2002, os dois últimos de 2003.  Na alentada obra de história dos bastidores, Dirceu só aparece na famosa fotografia em que está prestes a embarcar para o exílio com os companheiros. Nem mais uma menção.
Tal como ocorre com a biografia de José Dirceu, em as “Ilusões Armadas” e “O Sacerdote e o Feiticeiro” temos a História contada sob a perspectiva que realmente importa: a dos pensamentos, dos atos e das decisões concretas de pessoas concretas, e não sob a perspectiva de causas impessoais. A obra partiu de um trabalho acadêmico em que Gaspari intentava, no Wilson Center for International Schoolars, de Washington, compreender porque Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva, o Alemão e o Corca, o Sacerdote e o Feiticeiro, pelos quais Gaspari não esconde a simpatia e a amizade, decidiram desligar os aparelhos que mantinham a ditadura viva. Só no 4º. e no 5º. Volume, contudo, o autor se dedica a relatar a série de atos e decisões destes Generais que culminaram na derrocada do regime.

Trata-se de uma história autenticamente imparcial, a-ideológica, e impiedosa. Tanto com a esquerda quanto com a direita. O mal naquele momento era o que vem expresso no título dos dois primeiros tomos: “as ilusões armadas.” A ilusão de que a esquerda radical poderia chegar a uma revolução comunista no Brasil pelas armas; a ilusão da direita de que precisaríamos de um golpe militar e da abolição da legalidade para combater esse mal. No meio, temos a esquerda e a direita democráticas que foram tiradas do jogo.

Os preparativos para a revolução comunista financiada por Cuba no Brasil começam ates de 1964, com as viagens de Francisco Julião à Cuba, onde foi convencido pelo Comandante a iniciar um foco guerrilheiro na terra de Santa Cruz. Nos primeiros anos do golpe militar, o comando da sucursal brasileira da revolução continental passa a Leonel Brizola, “El Ratón” (esse apelido Gaspari lhe poupa. Reza a lenda, Brizola embolsou dinheiro de Cuba, motivo pelo qual o Comandante lhe dedicou a alcunha). Neste segundo momento, um dos principais focos foi montado na serra do Caparaó. Fiasco total. Com o AI-5, e sob o pretexto de combatê-lo, surge uma miríade de organizações guerrilheiras, a principal delas comandada por Carlos Marighela, a Aliança Libertadora Nacional - ALN. E’ o período critico da luta armada.

Esse velho comunista ítalo-baiano, o mais ousado e sanguinário de nossos comunistas, foi executado numa emboscada nas ruas de São Paulo, pelo sádico Dr. Fleury, com intenso prazer. Era o inicio da derrocada. Esta terceira fase do movimento revolucionário dura de 1968 a 1974 com a morte do último homem no Araguaia, onde se instalara a guerrilha rural do PC do B.

Gaspari não é condescendente com os crimes desta inútil tentativa revolucionária. Mas os relatos de abusos pesam mais no lado da balança em que está o regime militar. Os principais vilões, porem, não estão no alto escalão: Castelo Branco era um genuíno democrata titubeante para quem a ditadura devia durar apenas 2 anos, com a finalidade de apenas concertar as coisas e eliminar comunistas e golpistas. Costa e Silva, este sim, era um burrão perigoso com sangue nos olhos, mas so se decidiu pelo AI-5 pressionado pela linha dura. Médice, Geisel e Figueiredo não acreditavam na democracia: o povo não sabia votar. Jânio era a maior prova. Geisel acreditava sim que uma elite de melhores homens, tecnocratas como seu parceiro Golbery, deveriam decidir os rumos da nação, sem consulta popular. Geisel também era teoricamente favorável `a tortura em casos excepcionais. Contudo, Geisel, Golbery e Figueiredo pretendiam devolver a democracia plena ao Brasil e prepararam o caminho para a abertura democrática. Principalmente Geisel e Golbery, Figueiredo era só uma cria dos dois.

Pois bem, os maiores vilões estavam no meio: a linha dura. Esta era representada principalmente pelos médios oficiais: majores, tenentes-coronéis, coronéis, generais com poucas estrelas. Foram eles que forçaram cada guinada mais autoritária: o prolongamento do governo de Castelo Branco, o AI-5, a lentidão da abertura. Cometiam atentados e quarteladas para desestabilizar o Governo sempre que este apontava para o relaxamento do regime. A estes atos de desestabilização do governo com vistas ao endurecimento sem ternura, Gaspari da’ o nome de “anarquia.” Foram estes “anarquistas” que sempre deram respaldo à “tigrada” (sargentos, tenentes e capitães condutores de inquéritos militares e delegados de polícia civil) para torturar, executar sumariamente, enfim, fazer o terror de direita. Queriam sempre o recrudescimento da ditadura. Sempre mais sangue de comunistas. Chegaram a lançar um jornal com a figura do moderado Golbery enforcado. Golbery, ídolo de Glauber Rocha, que o compreendeu como ninguém, era o General mais odiado pela tigrada e o General que mais a odiava.

Os Generais de alto escalão, a cúpula do governo é que punham freios ao apetite de sangue da tigrada, mas lavaram as mãos um sem-número de vezes. Segundo a tese de Gaspari, foi Geisel quem defenestrou de vez a linha dura e o episódio mais significativo teria sido a demissão de seu Ministro do Exército, Sílvio Frota, o líder da tigrada.

Roberto Campos, Ministro do Planejamento de Castelo Branco, e um dos responsáveis pelo milagre econômico, diz em suas memórias, “Lanterna na Popa”: “tínhamos duas escolhas: anos de chumbo ou rios de sangue.” Será mesmo? Tertium nom datur? Gaspari não responde à questão, mas dá a entender que, definitivamente, não!

A questão de Roberto Campos é a fundamental sobre 1964: o golpe, as cassações, a suspensão do habeas corpus e dos direitos fundamentais, a censura, a tortura, as execuções sumarias, a ilegalidade eram realmente necessários para a contenção das pretensões revolucionárias da extrema esquerda que poderiam, de fato, resultar em rios de sangue? Um governo democrático, dentro das regras do Estado Democrático de Direito não poderia realizar o mesmo com o idêntico êxito?

Não se sabe. Bem, há indícios de que se não houvesse um golpe de direita, um golpe de esquerda pudesse ser intentado, facilitando as coisas para a extrema-esquerda. Jango, esse democrata incontroverso, tinha suas pretensões golpistas, narra Gaspari no primeiro tomo.

O fato é que a ditadura militar aboliu, com uma eficiência ímpar na América Latina, e com menos violência em comparação como outras ditaduras latino-americanas, a chance de uma revolução comunista armada no Brasil. E não deixou resquícios. Mas para isso cometeu atrocidades. A tortura campeava. A execução sumária de exilados que retornavam clandestinamente ao Brasil, da qual Dirceu, escapou, era norma tácita. No Araguaia, o jus bellum, o conjunto de normas fundamentais da guerra, foi suspenso: a ordem era exterminar todos, mesmo os que se rendessem. Mesmo os meramente suspeitos. E assim foi feito. Como em Canudos, não sobrou um só! Políticos inofensivos foram caçados. Inocentes foram martirizados. Graças a tudo isto, não temos hoje uma FARC atuando em território nacional. Mas não poderíamos ter contido as pretensões revolucionárias sem atrocidades e dentro do estado democrático de direito?

Dizer que os anos de chumbo foram necessários para se evitar os rios de sangue é uma suposição. Mas a História é feita de apostas, de decisões sobre o incerto, com base em conjeturas sobre o futuro imprevisível. O conservador americano Patrick J. Buchanan acusa Churchill de responsável por duas Guerras Mundiais “desnecessárias” (vide “Hitler, Churchill e a Guerra  Desnecessária”, Nova Fronteira, 2008). Hiroxima e Nagazaki eram mesmo necessárias? Truman e Churchill apostaram que sim. Chega sempre o momento em que os homens que decidem o destino do mundo, conjeturando que a inação ou uma decisão mais branda seria desastrosa, decidiram-se por ações drásticas. E o homem político, nos diz Ortega y Gasset, é aquele que não tem escrúpulos: sua função é, quando todos vacilam, decidir sem medo, dó ou piedade.

O menino de Passa Quatro acabou se tornando um destes “inescrupulosos”, mas que grande obra desculpa sua falta de escrúpulos?


terça-feira, 26 de novembro de 2013

INTERPRETAÇÕES ONÍRICAS, GOZAÇÕES FILOSÓFICAS, MINISTROS, DEMÔNIOS, PADRES E MÉDICOS.

Vou escrever sobre o sonho que tive ontem à noite. O Ministro Joaquim Barbosa apareceu no meio. Tinha expedido um mandado para eu cumprir. Eu recebi a Excelência no meu trabalho, que não era o onde trabalho, mas o puxadinho do quintal da minha infância onde eu sempre brincava. Tinha um outro sujeito na história, mas não lembro quem era. O Ministro veio até a mim para me acompanhar no cumprimento do mandado.

Fomos à Brasília de carro. Não sei para quê ele veio de lá me buscar e voltamos para lá. Ficamos nas portas de uns prédios vermelhos e marrons esquisitos (não adianta eu querer descrever. Não dá.). Eu queria ver a praça dos três poderes. 

De repente, fomos até a casa de minha mãe. Era dia chuvoso e escuro. Mas a fachada da casa não era a da minha casa e o lugar não era nenhum lugar parecido com qualquer outro onde eu já tenha estado. E o R., meu brother do ensino médio, estava lá na porta, o cumprimentei, e ele me acompanhou. E entramos. Aí já estávamos na minha casa. Eu sempre sem graça com o Ministro. Ele tratou minha mãe de Dona Maria, fez piada, e foi cordial. 

Mas logo em seguida estávamos lá fora e o Ministro se colocou de cócoras e começou a comer barro com feijão e uma água lodosa no chão. O sonho acabou.

O que isso significa? Nada.

Creio que há sonhos premonitórios. Creio que há avisos sobrenaturais em sonhos. Creio que sonhos são também manifestações do subconsciente. Mas este, que era? Uma mera composição surrealista com base em fragmentos de imagens que recebi estes dias. Tinha lido sobre o Seu Joaquim antes de dormir. Tinha falado com o R. estes dias.

Mas por que o Ministro se abaixou para comer barro com feijão? Tem algum gozador dirigindo nossos sonhos?

Mudemos de assuntos. De Ministros a Demônios.

Eu comprei um livro do Vilém Flusser porque Olavo de Carvalho o tem em alta conta e porque MVC recomendou “A História do Diabo.” Minha mãe, católica praticante, com segundo grau feito nas coxas, e nenhum livro na cabeça, ficou muito preocupada com isso na época, mas eu, para despreocupá-la, falei que era a mais pura bobagem literária, que era só um livro idiota e ficou tudo bem.

Comecei a ler. Larguei. Ontem peguei de novo e não pude deixar de morrer de rir. Que gozador filosófico danado! Na introdução, ele começa definindo o diabo: é o pai da história. A história só existe neste mundo físico, na eternidade não há história. Assim, o diabo é a força que quer nos manter presos neste mundo. Já Deus é o princípio que quer nos desvincular dele e nos conduzir para o mundo transcendente. Nada difere do que prega a Igreja. Vou à diante. Ele então diz que as artimanhas do diabo para manter-nos neste mundo são os sete pecados capitais. Mas eis que então ele propõe um hierarquia dos pecados capitais que vai da luxúria à preguiça – o mais grave segundo ele. Luxúria é o princípio da vida,  lust for life, e preguiça é a desistência dela, quando cessa o impulso vital. Luxúria e preguiça são os dois principais, os demais são derivados: por exemplo, a ira deriva da interrupção da luxúria. Mas, bem, em que se baseia esta hierarquia? O alemão gozador responde:

“A hierarquia proposta por este livro é puramente acidental, levemente apoiada sobre a “historicidade” da natureza, e informada por preoconceitos freudianos.”

Caí na risada. Trata-se de um gozador filosófico. O livro é uma paródia de grandes teorias gerais da história. O tom é o mesmo com que Machado de Assis descreve o Humanitismo.

Não sei se as demais obras de Flusser tem o mesmo caráter, mas quanto a este não há dúvidas: gozação filosófica, paródia. Um livro inteiro só para isso. E muita gente deve ter levado a sério.

Esse tipo de gozação, vinda de um homem sério e erudito, muito me encanta. Lembra um franciscano holandês de minha aldeia, amante de botequins e simpatizante do carnaval fora de época, mas homem de sólida cultura e sermões impactantes, daqueles que puxam a orelha íntima do melhor dos cristãos. Era calvo, de barbas ruivas e olhos azuis. Sátiro franciscano, amava os contos do vigário e praticava-os toda páscoa, dizendo, por exemplo, que o padre da outra paróquia iria sortear um televisor em cores na próxima missa lá. Nossa aldeia sempre foi muito quente, mas, num dezembro de calor extraordinário, mandou pregar um cartaz na porta da Igreja: “se vocês acham que esta cidade é quente, aguardem o fogo do Inferno!” Enquanto eu, que tinha por volta de 8 anos, me assustava com o cartaz na porta, o gozador de batina marrom refrescava a garganta com moderadas goladas de chopp no bar ao lado.

Temo que Dante Aligheri colocaria gente como eu e esse padre naquele lugar cujo nome é melhor não dizer.  Quanta gente Dante Aligheri colocou lá, meu Deus! Até o coitado do Celestino V, precursor de Bento XVI. Para lá eu também já fui conduzido em sonho, por culpa da gula. Foi mais ou menos assim:
Peri, nosso taberneiro predileto, me levou até a cozinha do bar em Carangola acenando com o braço (“Vem cá”) e lá me abriu o alçapão. “Desce”, ele disse. Cai centenas de milhares de quilômetros. O poço era fundo e interminável, mas dei numa espécie de salão majestoso. “Aquele homem ali?” Caí de joelhos e disse: “Santo Padre!”

Bento XVI já não se situava mais no tempo-espaço tal como o conhecemos. Pedi para beijar-lhe a mão, o que me concedeu. “Glorioso timoneiro!”, eu disse. Em resposta, com olhar sério, o Papa me disse que eu seria levado ao 3º círculo onde penam os que pela gula foram condenados.

“Mas Papa, me perdoe, você sabe que comprei seu livro em Aparecida-SP e que sempre falei mal do relativismo, e sempre comprei paçoquinha no sinal vermelho para ajudar os pedintes, tratando-os com toda cortesia”. Em vão. Ele tinha uma carta de ordem do Supremo. Adentramos o 3º círculo. Lá penavam os que de cerveja e cigarro tinham abusado enormemente. Tinham guelras nos pescoços e abriam a boca mostrando a garganta depois de dizer isto aqui: “Vejam, brotaram-me guelras, vem o médico todos os dias me castigar com químio.”

O médico chefe, neste momento, chegou. Bento XVI me alertou: não se deixe ludibriar, ele assume a forma do Dr. Drauzio Varela, mas é o mesmo que reina no último círculo destas plagas. Satã-Drauzio Varela era para mim surpreendente, por mais que o nobre médico fosse quase tão feio quanto.

“Aqui padecem os que no consumo de cerveja e cigarro foram imoderados. Avisei no Fantástico”, falou o médico das trevas.

Em seguida disse: “vejam!” E após abrir o notebook mostrou no data-show uma cena de abril de 2005, em Roma. Um nobre sacerdote padecia. Poucos minutos depois, o carmelengo e bateu-lhe três vezes na face com o martelinho de prata dizendo: “Karol Wojtyla. Karol Wojtyla. Karol Wojtyla.” O padresinho foi em seguida carregado por anjos para as regiões celestes. Mas o que Dr. Drauzio queria mostrar não era isto. Apertou o botão REW de seu data-show, agora transformado em vídeo-cassete, e mostrou-nos a cena que assim se narra:

Dr. Drauzio adentrava aquele solene quarto do Vaticano com sua bandejinha de prata (sobre a qual pousavam três seringas médicas) assoviando como a falsa enfermeira caolha de Kill Bill. E sugeriu ao Papa agonizante: “A eutanásia, Padre. A eutanásia, Padre.” O Padre fez um gesto para afastar a bandeja de prata, mas eis que... Bem, não sei quem meteu João Grilo na história, mas ele apareceu como um romeiro nordestino e interrompeu Drauzio Varela: “Por que você não pega essa eutanásia e enfia...”  

Acabou-se o sonho bruscamente. Assim relatado, prometo ser a última vez que trato em tom jocoso de assunto tão sério.



segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A TESE FILOSÓFICA DO DR. BARROSO

O Dr. Luís Roberto Barroso chegou a sua mansão no Rio de Janeiro fatigado após a sabatina no Senado que avaliou se ele é possuidor da reputação ilibada e do notório saber jurídico requeridos para que venha a ocupar uma das cadeiras do Supremo Tribunal Federal. Ainda vestido qual Pontes de Miranda, recostou no divã, dispensando a jacuzzi de costume por ser inverno, e sonhou.

Súbito, estava na mesma sala de audiências do Senado Federal onde há pouco fora interrogado. Ficou estupefato, todavia, ao perceber que, em vez da turba loquaz e agitada de senadores a sua frente, tinha apenas uma figura: o mesmo afável visitante das trevas que aparecera a Ivan Karamazov, vestido como um cavalheiro russo, à moda 1.860, aproximadamente. A figura lhe era familiar, eis que fruto de sua própria construção imaginária ao ler o romance no início da década de 1970, quando ainda frequentava as arcadas de sua faculdade de Direito. Porém, o cavalheiro de longa barba e cabeleira encanecida tinha mais vida, mais tridimensionalidade, definição e brilho, além de uma voz roufenha e sussurrada emprestada ao Colonel Kurtz hollywoodiano, provavelmente. A personagem lhe sorria e ele permaneceu atônito até que notou ao seu lado o Presidente do Senado Federal, curiosamente agora não mais o Sr. Renan Calheiros, mas o próprio Dr. Ulisses Guimarães, pálido e com olheiras acinzentadas sob órbitas encovadas, que anunciou: “Com a palavra o Senador Lúcio Silvério dos Reis.”

“Serei breve, Sr. Presidente.” E então, fitando o interrogado com um sorriso sardônico e segurando com indicador e opositor esquerdo a haste delgada do microfone, arguiu:

- A pergunta é muito curta e direta, Dr. Barroso. Pois bem, dia a dia o seu camelo de erudição e riqueza engorda, então como passará pelo buraco da agulha?

A reação do sabatinado foi de imediata irritação. “ Senhor Presidente, não posso admitir esse tipo de indagação. Não guarda correlação com a minha nomeação ao Supremo. Trata-se de um desrespeito  com minha carreira e minha obra! Um acinte!  Portanto, já me retiro, Sr. Presidente.”

- Dr. Barroso, um momento, ainda não declarei encerrada a sessão. – interveio o colendo presidente do Senado.

Mas Barroso, de forma impávida, ergueu-se para o espanto do vetusto congressista. No divã, o coração no corpo adormecido de Barroso passava a bater com maior frequência. Mas, no sonho, antes de sair da sala, deu meia volta, retornou à mesa e tomou nas mãos uma taça do romannée-conti que estava de modo surreal sobre ela e, num ato desconcertante, a lançou sobre a cabeça do sinistro inquisitor. Repetiu assim o mesmo gesto de Martim Lutero e do próprio Ivan Karamazov.

Saindo apressado da sala do Congresso, interpelou seu motorista: "Que diabo! Aquele velho não tinha morrido em Angra? Mas vamos depressa, já está quase na hora do velório." Simultaneamente, o egrégio Dr. Ulisses, de pé, esbravejava brandindo republicanamente um opúsculo com a mão direita: "Dr. Barroso, é um descalabro! É uma afronta à Carta Magna, à carta da liberdade, dignidade, da justiça social do Brasil!"

Em seguida, como que por teletransporte, o futuro Ministro já estava defronte da Igreja da Candelária. Intrigou-se novamente: estava em pleno funeral do Arqueduque Otto von Habsburgo, ex-delfim do Império Áustro-Húngaro, mas no Rio de Janeiro! A cena era a recordação de um documentário assistido na televisão germânica há alguns anos. Nela, a porta da Igreja estava fechada e uns monges capuchinhos tentavam ingressar com o esquife imperial. Seguiu-se um diálogo entre os que estavam dentro e os que queriam entrar:

- Quem pretende entrar?

- O Imperador da Áustria; antigo Príncipe da Coroa da Áustria-Hungria; Príncipe Real da Hungria e da Boêmia, da Dalmácia, Croácia, Slavônia, Galícia, etc.[i]

- Não o conhecemos.

-Dr. Otto von Habsburgo – e em seguida fizeram um longo inventário das conquistas políticas e intelectuais do cadáver ilustre.

- Não o conhecemos. – E por fim o último apelo:

- Otto, apenas um homem, mortal e pecador, no mesmo caixão de cipreste do Sr. Wojtila!

-Então ele pode entrar.

Mal recomposto do espanto ante a cena absurda, Dr. Barroso viu um saltimbanco assomar na sua frente. Dançava com os dois braços semi-erguidos, as mãos espalmadas para o alto e ora pisando com o pé direito, ora com o esquerdo. Era inequivocamente o Chicó d’O Auto da Compadecida, mas tinha a cara de um sobrinho seu em idade colegial. Falou o histrião: “O imperador cumpriu sua sentença, encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a Terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre...” A memória profunda de Barroso conhecia a passagem do dramaturgo pernambucano de cor.

Dr. Barroso aborreceu-se mais uma vez e deu meia-volta para retirar-se. O intruso, porém, insistiu: “Dr., um momento! E’ verdade que a pálida morte toca com o mesmo pé os casebres dos pobres e as torres dos ricos, já sabiam os antigos, mas só as potestades que sabem se tornar miseráveis na hora mais lacrimosa, como o Dr. Otto, serão admitidas no interior da Candelária Celeste.”  Barroso resmungou, dando as costas a Chicó: “Só me faltava essa, o vagabundo de Suassuna citando Horácio!”

Um segundo depois, em sua mansão leblônica, despertou o futuro Ministro do Supremo. Era já advogado e parecerista milionário, se tornaria logo um dos homens mais poderosos da República, aplacando de vez a sua sede de nomeada, mas possuía também ambições filosóficas. Esfregando então os olhos, falou à esposa com o mesmo sorrisinho do famoso busto de Voltaire:

- Amor, já tenho um tema para a tese de filosofia pura que pretendo desenvolver:  “A Impossibilidade Ontológica da Origem Sobrenatural dos Sonhos.”

















SOCIOCARACTEROLOGIA DO MINEIRO - BREVE ENSAIO DE SOCIOLOGIA DAS IMPRESSÕES

Pedro Sette Câmara lançava outro dia em seu blog a ideia de que o caráter estereotípico atual de cariocas e paulistas advém da classe social dominante na origem de seus respectivos estados. O Rio de Janeiro era a sede do Império e, portanto, estava repleto de aristocratas, que viviam para serem servidos e não precisam comer o pão com o suor do próprio rosto, daí os cariocas serem tão folgazões, espontâneos, cheios de si, ávidos por admiração, orgulhosos, além de um tanto perdulários. São Paulo foi construída por burgueses, do café e da indústria. Por isso são sérios, racionais, austeros, disciplinados, diplomáticos, eficientes, cuidadosos.

Inspirado nisso, penso como eu poderia tirar a origem histórica do estereótipo mineiro: o do sujeito acanhado, desconfiado, avesso a riscos e aventuras, tradicional, cordial, conciliador. A explicação parece clara: o nosso mito fundador, a Inconfidência Mineira.

Até ela, o mineiro não era nada do que descrevi acima. Filhos dos desbravadores bandeirantes, constituíram aqui o centro da economia do Brasil no século XVIII e fizeram da região mineradora um centro de vanguarda econômico e de ideias. Foram os primeiros a pensarem na independência, anelavam o livre mercado e planejavam até a implantação de indústrias, sob a inspiração do conjurado José Álvares Maciel, que estudara mineralogia na Europa e tivera contato com Thomas Jefferson.

De repente, quando as ideias independentistas ainda estavam em formação, sem um projeto bem planejado, o grupo é traído e a reação da soberana de Portugal, Dona Maria I, louca, é brutal e aterradora. Condena todos ao exílio e Tiradentes, o bouc emissaire mais célebre da nação, é posto na forca, decapitado e esquartejado, sua cabeça pendurada em poste em praça pública, seus membros em cada uma das saídas da cidade, sua decedência amaldiçoada, sua casa derrubada e o terreno salgado para que nada nele nascesse. Ai morreu o espírito desbravador mineiro. Um trauma profundo nasceu ali. Todos ficaram cheios de medo e desconfiados de que alguém como o Silvério os traísse. Passaram a abominar qualquer radicalismo, temendo a repressão brutal. Tornaram-se tradicionais e avessos a aventuras, e estas poderiam resultar em nova tragédia. Calaram-se. Passaram a temer ideias inovadoras, extravagantes. Tornaram-se também conciliadores, buscando agradar a todos e não contrariar ninguém*.  Depois veio a decadência da exploração aurífera e a debandada para a Mata, onde se tornaram ainda mais taciturnos, desconfiados, tradicionais, rústicos, duros, inflexíveis, drummondianos e melancólicos.

O mineiro da mata é ainda mais deprimente. Semelhante ao caboclo paulista, era “o sombrio urupê de pau pobre a modorrar silencioso no recesso das grotas” (Monteiro Lobato). “Rústico, inflexível, desconfiado, precavido, rotineiro, sistemático, teimoso, prepotente”, assim o definia o historiador Paulo Mercadante, mineiro da mata, que cedo cedo deu um jeito de desaparecer desse ambiente sufocante. Um ancestral querido era essa descrição encarnada. Doente, no fim da vida, era calado e achava que os outros não precisavam compartilhar de seu sofrimento. Ia dormir longe da mulher para não incomodá-la com o ruído dos escarros de sua garganta ferida. Quando morreu, foi sozinho para o hospital de ônibus em de uma cidade vizinha. Passou a vida taciturno e arredio, não fez grande ousadias e fugiu de façanhas. Curava a melancolia com pinga. Teve filhos mais ousados, que ganharam o mundo, porém que lhe herdaram a cabeça dura e a inflexibilidade, e ao que tudo indica, voltam para morrer na mesma grota.

As cidades do interior criaram um clima então pesado e rústico demais de onde sempre saem espíritos revoltados, mas tem que fugir dali para uma destino mais aberto a sua rebeldia, como fizeram mineiros como Zé Dirceu, Frei Betto, Fernando Gabeira, Dilma Rousseff, nos anos 1960.

*A tática conciliadora de tomar a sopa pelas beiradas deu certo, pois nossos conciliadores lograram desviar para suas terras ao longo das décadas a maior parte do orçamento federal, de modo que o Estado possui, por exemplo, uma quantidade de Universidades Federais superior a de qualquer outro ente da federação. Um estudo sociológico de Simon Shwartzman, mineiro, mostra como na primeira república nossos conciliadores mandavam no orçamento federal, enquanto o paulista trabalhava para pagar impostos que sustentavam a nação.



UM EMBAIXADOR NA ZÂMBIA

Há um membro ateu militante no Ministério Público da União, aquele mesmo que quer proibir o uso da menção a Deus nas notas de real. O Ministério Público da União é talvez o órgão do Poder Judiciário mais infestado de doentes ideológicos. Ganhou nota do maior blogueiro político do país a história do DRMP que queria proibir a veiculação da novela “Escrava Isaura” por apologia do racismo. Mas este recém inaugurado blog “político” não tem a intenção de tecer críticas a estes senhores. Sua função é tratar dos assuntos de Estado de uma perspectiva idiossincrática. Por isso dedicarei este post a uma figura real, que jamais conhecerão, e que talvez nem exista, sobejamente mais interessante, o Dr. C.

O Dr. C. foi o único Promotor de Justiça darwinista social que conheci. A maioria dos membros do Ministério Público e da Magistratura sequer sabem o que é darwinismo social. Na maioria das vezes dirão: “ah, aquele negócio que a gente estuda na História pro vestibular, né?” Mas também não sei mesmo se o Dr. C. assim se classificaria. O fato é que acreditava, como Euclides da Cunha (que deve ter achado muito bem feito a extinção daquela raça de degenerada de cangaceiros cabeças-chatas hérculos-quasímodos de Canudos algo muito natural e desejável) no mito da superioridade das raças. Acreditava discretament e confesava só para os íntimos, sempre com pilhéria. Por óbvio, afinal, bastava um deslise para que o art. 5., XLII, da Constituição Federal acabasse com a sua carreira e com a sua vida rapidamente.

Doutor C. também não advoga a supressão violenta ou segregação das raças inferiores como Karl Marx, apenas que a supremacia social de certas raças deveria ser encarada como algo natural, fato da evolução, e que, portanto, políticas de cotas, por exemplo, iriam contra às leis da própria natureza, devendo ser desestimuladas pelo bem do florescimento de uma sociedade mais civilizada, culta, organizada e materialmente exuberante.

Quando lhe trazíamos um exemplum in crontrario, como o do Anjo Negro Vingador do Mensalão, ou do homem que está para os EUA como a Miranda de Dark Night Rises está para Gothan, na realização dos sonhos de destruição do pai (vide Dinesh D’Souza), ele vinha com uma velhíssima escusa que vem do tempo de nossos tetravós coronéis: “mas estes são da canela fina.” Parênteses:  É de nossos tetravós também a esquecida: “preta para trabalhar, mulata para fornicar, mulher branca para casar.” Mas não vamos dar uma de Florestan, preferimos o Gilbertão, esse nosso bom-vivant sociólogo fornicador que descobriu o mito da moura encantada, mito este que, se nos Quinhentos era um propriedade de portugueses, agora é um mito eminentemente holandês e alemão (Copabana).

A idéia das canelas finas sugeria uma ideia de gradação e de matizes raciais. Outro exemplo que nos dava: aqueles angolanos que emporcalharam de mexirica o prezídio no livro/filme do João Estrela causaram náuseas aos nossos bons mulatos, Seus Jorges e Cias, o que mostra a evolução destes últimos.

Eu tentava contraditá-lo: “mas Doutor? Isso tudo é antes uma questão cultural que racial ou genética.” Nestes momentos ele só respondia com um esgar de desprezo e um “Quê?”

Mas eu flagrava bem qual era o do Doutor. No fundo, ele era um wunderblog do Ministério Público. Todo o seu pseudo-racismo provinha do gosto pelo refinamento. Era sujeito colecionador de relógios caros, vinhos de quatro dígitos, com gostos dandistas exóticos como o de viajar cerca de 200 Km até a capital para comprar polvo para o almoço do dia seguinte, gestos aristocráticos, e uma propensão incansável pelo cultivo do intelecto. Era ainda um bibliófilo. A obra preferida era “Ascenção e Queda do Terceiro Reich” do Shirer. Compartilhava daquela admiração estética pelo Terceiro Reich.

 C. era sujeito que, depois de uma viagem à Europa, retornava para seus misteres públicos na cidade do interior para o combate aos pequenos furtos e traficâncias (gostava de ditar denúncias de pé para seus assistentes sobre apreensões de bucha de maconha cantando Bezerra da Silva e andando de um lado para o outro), para guerra aos pequenos espancadores de mulher, para os pareceres em causas de revisão de pensão alimentícia, para o desvio do leitinho das crianças por insignificantes prefeitos analfabetos, cheio de spleen, nauséé, acídia, ennui, enfado, tédio, boredom, que só o bordeaux e e uns comprimidos tarja preta, seus emplastos anti-melancolia, poderiam aplacar. Certa feita, resumiu tudo isto com a frase: “sou um embaixador na Zâmbia.”

A acídia que menciono no parágrafo anterior explica mais um traço característico seu. Compartilhava da weltanschauung shopehaureana. “Já leu Nietsche, Heiddeger? Devia, menino”, me aconselhou um dia. Não acreditava naquela Nova Jerusalém, por isso anseava por um jardim de delícias refinadas aqui mesmo. Mas ia a missas e tinha uma simpatia singela por quermesses.

Contudo, um dia me confessou uma história. Num fim de mundo qualquer onde exercia seus misteres públicos no início da carreira, uma mulher negra miserável (tempos pré bolsa família talvez) catava objetos num lixão com os filhos. O mais novo dos meninos descalços achou uma garrucha velha no meio dos dejetos e sem saber muito o que fazia apertou o gatinho matando o mais velho. C. investigou o caso. Impressionou-se muito com o caldal de lágrimas que aquela mulher maltrapilha, com um lenço na cabeça típico de lavadeiras de interiores muito pobres, vertia no interrogatório. Passou algumas noites em claro após o episódio. Durante seu relato, notei que ele relutava para que seus olhos marejados também não vertessem um fio de lágrima. Naquela ocasião, notei que, por baixo ou bem atrás do véu de ideias meramente estéticas darwinistas sociais e shopehaureanas, havia nele o fundo de um humanismo cristão. E o fundo é tudo o que importa, as ideologias eram só espuma. Coisas que os politicamente corretos jamais compreenderão.

ATÉ A ÚLTIMA INSTÂNCIA

Condenado em primeiro grau, o réu K. usou do seu direito ao duplo grau de jurisdição e apelou para o Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, perdendo também ali a sua causa. Apelou então para o Superior Tribunal de Justiça e também lá teve seu recurso especial negado. Foi então ao Supremo Tribunal Federal, mas instância constitucional, mais uma vez, não deu provimento ao seu recurso.

K, todavia, não desanimou, e com seu advogado, Dr. Ricardo Leandro, embarcou para Caracas a fim de protocolizar recurso perante Corte Interamericana de Justiça. Mais uma vez em vão. Mas seu caso era de repercussão mundial, então embarcou para Genebra, tinha esperanças que a Corte Interamericana de Justiça lhe fizesse justiça, mas a corte mundial, por um placar apertado, e após dezesseis horas de discussão, manteve a condenação.

Era o fim? Pensam que desistiu? Não, nunca desistiria, jamais retrocederia. Ainda lhe restavam instâncias a que apelar. As instâncias apelatórias  cresceram em número após a descoberta de vida em outros planetas e a criação dos Tribunais Interestrelares e Integaláticos. O réu K. comprou passagem então na Star Trek Eleven e rumou na velocidade da luz até o Planeta de Hubble, situado Constelação de Órion, Via Lactea, sede do TRIES-1 (Tribunal Interestrelar-1). O advogado terrestre substabeleceu a procuração a um advogado alienígena. O réu tinha esperanças de que os julgadores interestrelares, vidas inteligentes de diversos planetas extrasolares, reunissem mais inteligência e justiça que os julgadores terráqueos (aliás nenhum terráqueo havia sido nomeado para compor as 3.751 cadeiras daquele tribunal).Veio então o acórdão extraterrestre. Mais uma derrota.

         - Desista, meu caro, volte para a Terra, cumpra a sua pena, ainda é jovem. Aconselhou-lhe o amigo Lucke Skywalker.
         O réu esteve mesmo a ponto de desistir neste ponto, pois seria vão recorrer novamente, a sua culpa parecia mesmo inconteste. Mas à noite, já de malas prontas, foi acordado por seu aliendvogado, um alienígena cor magenta do Planeta de Howking, que fez fama e carreira promovendo causas de terráqueos junto aos tribunais interestrelares. Ofegante, veio o douto causídico sideral contar a boa nova:

-Descobri um dissídio jurisprudencial, entre o TRES-1 e o TRIES-42.336.811. Julgado no TRIES-42.336.811 tu terias absolvição indubitável, meu caro. É justa causa para um Recurso Especial Interestrelar! Vamos ao Superior Tibunal da Galáxia!

O Egrégio STG era uma tribunal compostos por vetustos alienígenas com mais de 900 anos, muito probos e de intergalaticamente notório saber jus-galático. A jurisprudência do STG era exemplar e servia de modelo para diversos STG’s do Universo. Mas havia um dado que contava desfavoravelmente para o nosso incansável K.: a maioria dos 721 ministros do STG eram provenientes do TRIES-1 e, obviamente, compactuavam da visão jurisprudencial daquele tribunal interestrelar. A isto o ilustre procurador não havia dado atenção ao convencer nosso réu a viajar tantos anos luz até o coração da Via Lactea para ser julgado. Conservaram porém as esperanças até o voto de desempate de Sua Excelência o Presidente do STG, que, não sem algum suspense, negou provimento ao recurso especial, para a fúria do aliendvogado que, no fim da sessão, franziu as barbatanas posteriores de sua cabeça e bradou dando um murro com sua mão de 20 dedos :

-         INCOSMICOCONSTITUCIONALl!

-         O que? – indagou surpreso o réu.

-         A decisão viola preceitos da CONSTITUIÇÃO DO COSMOS! Viola a Magna Carta do Universo que tudo rege, tudo governa e estrutura toda a existência, outorgada por DEUS PAI TODO PODEROSO, desde o Gênesis.

-         O Que isso quer dizer? – indagou K. desanimado.

-         Quem dizer que amanhã mesmo partimos para a Galáxia de Andrômeda, sede do SUPREMO TRIBUNAL CÓSMICO. Temos um Recurso Cósmico-Extraordinário!

K. precisaria de mais de dois milhões de anos para chegar até a Nebulosa de Andrômeda, mas pegaram um atalho num “buraco de minhoca” e em 114 anos chegaram às escadarias de irídio enriquecido do STC.

Era a chance de ouro do aliendvogado mais brilhante da Via Lactea abrir caminho para o patrocínio de demandas cósmicas. Usou então naquela sessão toda a sua sabedoria jus-cósmica, toda a sua verve retórica, todo o seu arsenal de argumentos preliminares e de mérito nos seu 7 anos de sustentação oral. O tribunal era composto dos 11 homens mais juridicamente sábios do universo e, surpreendentemente, chefiado por um terráquio, o patriarca Abraão,  que ao contrário do que pensavam os judeus não morrera, mas fora abduzido no século XIX  A.C. por um demiurgo astronauta analista judiciário cumpridor de mandados, ex vi de uma decisão de ofício de Deus Pai Todo Poderoso, para integrar o mais colendo dos tribunais do Universo. Foi dele o voto de desempate.

Mais uma derrota.

O eternamente sucumbente K. quedou em sua cadeira fatigado. Pensou em deixar a causa transitar em julgado. O aliendvogado, porém, veio até a ele, pousou a mão em seu ombro e falou baixinho em seu ouvido:

-         Vamos apelar a Deus. A Instância Metafísica Máxima. Deus-Pai-Todo-Poderoso!

-         Ah sim, finalmente, isso já se arrasta há duas centenas de anos, então o que Deus decidir está decidido. Depois pago seus honorários e não interpomos mais nenhum recurso. Nom plus ultra.

-         Mas mesmo após a decisão divina ainda há algo a fazer, meu caro...
-         O quê!? Você está louco?

-         Não. Podemos entrar com embargos de declaração, por exemplo. Deus nem sempre é muito claro em suas intenções.