O Dr. Luís
Roberto Barroso chegou a sua mansão no Rio de Janeiro fatigado após a sabatina
no Senado que avaliou se ele é possuidor da reputação ilibada e do notório
saber jurídico requeridos para que venha a ocupar uma das cadeiras do Supremo
Tribunal Federal. Ainda vestido qual Pontes de Miranda, recostou no divã,
dispensando a jacuzzi de costume por
ser inverno, e sonhou.
Súbito,
estava na mesma sala de audiências do Senado Federal onde há pouco fora interrogado.
Ficou estupefato, todavia, ao perceber que, em vez da turba loquaz e agitada de
senadores a sua frente, tinha apenas uma figura: o mesmo afável visitante das
trevas que aparecera a Ivan Karamazov, vestido como um cavalheiro russo, à moda
1.860, aproximadamente. A figura lhe era familiar, eis que fruto de sua própria
construção imaginária ao ler o romance no início da década de 1970, quando
ainda frequentava as arcadas de sua faculdade de Direito. Porém, o cavalheiro
de longa barba e cabeleira encanecida tinha mais vida, mais
tridimensionalidade, definição e brilho, além de uma voz roufenha e sussurrada
emprestada ao Colonel Kurtz hollywoodiano, provavelmente. A
personagem lhe sorria e ele permaneceu atônito até que notou ao seu lado o
Presidente do Senado Federal, curiosamente agora não mais o Sr. Renan
Calheiros, mas o próprio Dr. Ulisses Guimarães, pálido e com olheiras
acinzentadas sob órbitas encovadas, que anunciou: “Com a palavra o Senador
Lúcio Silvério dos Reis.”
“Serei
breve, Sr. Presidente.” E então, fitando o interrogado com um sorriso sardônico
e segurando com indicador e opositor esquerdo a haste delgada do microfone,
arguiu:
- A
pergunta é muito curta e direta, Dr. Barroso. Pois bem, dia a dia o seu camelo
de erudição e riqueza engorda, então como passará pelo buraco da agulha?
A reação do
sabatinado foi de imediata irritação. “ Senhor Presidente, não posso admitir
esse tipo de indagação. Não guarda correlação com a minha nomeação ao Supremo.
Trata-se de um desrespeito com minha carreira
e minha obra! Um acinte! Portanto, já me
retiro, Sr. Presidente.”
- Dr.
Barroso, um momento, ainda não declarei encerrada a sessão. – interveio o
colendo presidente do Senado.
Mas
Barroso, de forma impávida, ergueu-se para o espanto do vetusto congressista.
No divã, o coração no corpo adormecido de Barroso passava a bater com maior
frequência. Mas, no sonho, antes de sair da sala, deu meia volta, retornou à
mesa e tomou nas mãos uma taça do romannée-conti
que estava de modo surreal sobre ela e, num ato desconcertante, a lançou sobre
a cabeça do sinistro inquisitor. Repetiu assim o mesmo gesto de Martim Lutero e
do próprio Ivan Karamazov.
Saindo apressado da sala do Congresso, interpelou seu motorista: "Que diabo! Aquele velho não tinha morrido em Angra? Mas vamos depressa, já está quase na hora do velório." Simultaneamente, o egrégio Dr. Ulisses, de pé, esbravejava brandindo republicanamente um opúsculo com a mão direita: "Dr. Barroso, é um descalabro! É uma afronta à Carta Magna, à carta da liberdade, dignidade, da justiça social do Brasil!"
Saindo apressado da sala do Congresso, interpelou seu motorista: "Que diabo! Aquele velho não tinha morrido em Angra? Mas vamos depressa, já está quase na hora do velório." Simultaneamente, o egrégio Dr. Ulisses, de pé, esbravejava brandindo republicanamente um opúsculo com a mão direita: "Dr. Barroso, é um descalabro! É uma afronta à Carta Magna, à carta da liberdade, dignidade, da justiça social do Brasil!"
Em seguida,
como que por teletransporte, o futuro Ministro já estava defronte da Igreja da
Candelária. Intrigou-se novamente: estava em pleno funeral do Arqueduque Otto
von Habsburgo, ex-delfim do Império Áustro-Húngaro, mas no Rio de Janeiro! A
cena era a recordação de um documentário assistido na televisão germânica há
alguns anos. Nela, a porta da Igreja estava fechada e uns monges capuchinhos
tentavam ingressar com o esquife imperial. Seguiu-se um diálogo entre os que
estavam dentro e os que queriam entrar:
- Quem
pretende entrar?
- O
Imperador da Áustria; antigo Príncipe da Coroa da Áustria-Hungria; Príncipe
Real da Hungria e da Boêmia, da Dalmácia, Croácia, Slavônia, Galícia, etc.[i]
- Não o
conhecemos.
-Dr. Otto
von Habsburgo – e em seguida fizeram um longo inventário das conquistas
políticas e intelectuais do cadáver ilustre.
- Não o
conhecemos. – E por fim o último apelo:
- Otto,
apenas um homem, mortal e pecador, no mesmo caixão de cipreste do Sr. Wojtila!
-Então ele
pode entrar.
Mal
recomposto do espanto ante a cena absurda, Dr. Barroso viu um saltimbanco
assomar na sua frente. Dançava com os dois braços semi-erguidos, as mãos
espalmadas para o alto e ora pisando com o pé direito, ora com o esquerdo. Era
inequivocamente o Chicó d’O Auto da Compadecida, mas tinha a cara de um
sobrinho seu em idade colegial. Falou o histrião: “O imperador cumpriu sua
sentença, encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de
nosso estranho destino sobre a Terra, aquele fato sem explicação que iguala
tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo,
morre...” A memória profunda de Barroso conhecia a passagem do dramaturgo
pernambucano de cor.
Dr. Barroso
aborreceu-se mais uma vez e deu meia-volta para retirar-se. O intruso, porém,
insistiu: “Dr., um momento! E’ verdade que a pálida morte toca com o mesmo pé
os casebres dos pobres e as torres dos ricos, já sabiam os antigos, mas só as
potestades que sabem se tornar miseráveis na hora mais lacrimosa, como o Dr.
Otto, serão admitidas no interior da Candelária Celeste.” Barroso resmungou, dando as costas a Chicó:
“Só me faltava essa, o vagabundo de Suassuna citando Horácio!”
Um segundo
depois, em sua mansão leblônica, despertou o futuro Ministro do Supremo. Era já
advogado e parecerista milionário, se tornaria logo um dos homens mais
poderosos da República, aplacando de vez a sua sede de nomeada, mas possuía
também ambições filosóficas. Esfregando então os olhos, falou à esposa com o
mesmo sorrisinho do famoso busto de Voltaire:
- Amor, já
tenho um tema para a tese de filosofia pura que pretendo desenvolver: “A Impossibilidade Ontológica da Origem
Sobrenatural dos Sonhos.”