Observo,
surpreso, pessoas simples e sem leitura
no interior do Brasil dizendo sobre a rara estiagem deste último verão: é culpa
do aquecimento global. Obviamente, não leram isso em jornais, porque não leem
jornais. Tampouco tiraram essa impressão da internet,
porque não acessam a rede mundial de computadores. A fonte da crença destas
pessoas no global warmming como fonte
da estiagem é, obviamente, a televisão, atuando de forma quase subliminar, pois,
decerto, não prestam atenção a reportagens sobre assuntos como o aquecimento
global.
A ideologia
aquecimentista adquiriu uma capilaridade fantástica, quase semelhante a da falsa
ideia de que o aumento do nível de renda dos mais pobres se deveu,
preponderantemente, aos oito anos do Governo Lula, crença a cuja difusão se
deve a eleição do pseudópodo luliano.
Está aí demonstrado,
na experiência cotidiana, o poder dos próceres desta ideologia, dentre eles Al
Gore, que figura em uma pesquisa de 2013 do instituto alemão Gottlieb Duttweiller Institute como o “intelectual”
(no sentido Paul Johnson, claro) mais influente do mundo numa lista de 100 (http://www.gdi.ch/de/Think-Tank/Trend-News/Detail-Page/The-global-thought-leaders-2013).
A fonte dos dados da
pesquisa não poderia ser melhor nos dias que correm: o Big Data. Leva em consideração o número de menções aos intelectuais
nos sites, acadêmicos ou não, na
blogsfera, nas redes sociais, ou em publicações impressas divulgadas na rede.
Não é possível que, depois das velozes, impactantes e irreversíveis revoluções
virtuais da década de 2000, um autor muito influente não seja muito mencionado
na web. O Big Data, parece-nos, é o melhor termômetro da influência nas
discussões públicas de um autor ou de uma ideia e os critérios da pesquisa
deveriam inspirar no Brasil pesquisas semelhantes.
A metodologia da
pesquisa, contudo, é precária por 3 motivos: (1) Ela leva em consideração
apenas “infoesfera” de língua inglesa,
ou seja, o que foi postado na internet em outras línguas não é levado em
consideração; (2) ela mediu a influência de 200 autores pré-selecionados,
entrando aí a subjetividade do universo cultural de seus autores e (3) ela não
está infensa a popularidade imediata, passageira, de certos autores, embora
tenha-se tomado precauções quanto a isto. Diante disto, o mais exato seria
dizer que ela mede predominantemente a influência predominante de intelectuais
no mundo anglo-saxão e que mede a influência “neste momento” de tais autores.
Contudo, é evidente
que os autores mais citados em língua inglesa devem ser, de fato, os mais
citados no mundo. Então é muito provável que uma pesquisa que levasse em
consideração menções na internet em todas principais línguas do mundo não teria
resultado muito discrepante. A pesquisa também não deve ser considerada a mera
listagem dos fogos-fátuos do momento. Isto
porque nossa experiência de leitores, na rede ou fora dela, nos mostra que a
influência de intelectuais como Slavoj Zizek, Noam Chomsky, Steven Pinker,
Daniel Dennet, Richard Dowkins, Stephen Howking não pode ser considerada passageira,
coisa de meros quinze minutos de fama fugaz, pois há quanto tempo esses nomes
não assomam aos nossos olhos sempre que abrimos uma publicação cultural?
A tabela de
divulgação dos autores associa-os à nacionalidade, à área de atuação e à
principal ideia defendida em suas obras.
Quanto às
nacionalidades, nenhuma surpresa: os anglo-saxões dominam, seguidos pelos europeus
continentais. O Brasil não está fora. Tem um surpreendente representante na
44ª. colocação: o confuso cientista político harvardiano Roberto Mangabeira Unger, que além da ideia de
transpor as águas do Rio Amazonas, através de ductos, para o sertão nordestino,
defende a “empowered democracy”, seja lá o que isso for. A influência de
Mangabeira Unger no Brasil é quase insignificante e seu nome aparece na lista
porque ele é um dos poucos brasileiros conhecidos no universo anglo-saxão e por
causa dos problemas metodológicos relatados parágrafos acima.
Quanto à área de atuação,
predominam os filósofos e cientistas, sejam estes das humanidades (sociólogos,
economistas, filósofos e historiadores), sejam das ciências naturais (da Física
e das Ciências Biológicas, predominantemente). Das humanidades temos lá:
Habbermas, Peter Singer, Slavoj Zizek, Daniel Dennet, Noam Chomsky, Steven
Pinker, Eduardo Galeano. Das ciências naturais: Oliver Sachs, Peter Higgs
(certamente catapultado recentemente pelo seu bóson), Stephen Howking, Richard
Dowkins. Todos cientistas da linhagem tradicional. Defensores de alguma ciência
de paradigmas alternativos são poucos, como Rupert Sheldrake, criador da teoria
da ressonância mórfica.
Depois dos
cientistas, temos meros militantes políticos (poucos), como o próprio cabeça da
lista e George Soros. Depois, muitos inventores, inovadores e empreendedores do
setor tecnológico: Elon Musk, o sexto da lista, John Craig Venter, do projeto
genoma, Raymond Kurzweil, dentre outros.
A literatura está
representada por uns poucos, dentre eles Mário Vargas Llosa, Salman Rushdie, e
Gabriel Garcia Marques. Surpreende a falta de Paulo Coelho ou de Dan Brown.
No aspecto político
parece-nos haver um predomínio de social-democratas, fabianos, defensores do
alargamento da democracia ocidental, globalistas, apóstolos do aquecimento
global, keynesianos, frankfurtianos, inimigos da supremacia norte-americana.
Saltam os olhos os nomes de Habbermas, George Soros, do próprio Al Gore, de Jeffrey Sachs, de Noam Chomsky,
de Nicholas Stern (teórico da economia do aquecimentismo), de Cristina Romer
(defensora do novo keynesianismo). Um único revolucionário mais visível, e confuso
quanto a seus objetivos, ocupa a quarta colocação: Slavoj Zizek.
Quanto a este, um
parênteses. Dissemos que a lista é um termômetro das maiores influências
intelectuais, mas nem sempre essa influência é visível. É difícil imaginar, por
exemplo, como a teoria complexa e vazada em árduo academiquês de Habbermas
possa influenciar movimentos globais organizados, por exemplo. Mas as
ideologias de Zizek, embora tão confusas quanto as de Habbermas, tem um caráter
mais panfletário, apelam a símbolos aglutinadores de radicalismos contra
estruturas globais, e, portanto, podem ser visualizadas em manifestações como o
occupy wall street, ou nos black blocks brasileiros. Tanto quanto
as teorias de Zizek elas tem objetivos e inimigos vagos como o capitalismo
global.
Não se vê na lista neo-cons e libertarians, ou eurasianos-duguinistas.
Isso nos mostra que estas correntes de pensamento político, embora já globais e
ganhando força graças à própria rede mundial de computadores, permanecem fora
do mainstream ideológico. Por isto
parecem-nos ainda impotentes para gerar alguma transformação importante no
mundo real, ou para formar grupos de pressão fortes. Digo isso a nível mundial,
já que neocons e libertarians, nos EUA, e eurasianos, na Rússia, já são forças
consideráveis como grupos de pressão locais.
No campo cultural,
predominam correntes de ideias como o new
atheism de Dennet e Dowkins, ou aquelas calcadas no evolucionismo, no
ecologismo, no naturalismo e no vegetarianismo.
As religiões estão mal representadas. Um único teólogo figura na lista: Hans
Kung que consta como católico não enquadrável no mainstream ideológico do
catolicismo, nas correntes tradicionalistas ou em assemelhadas à teologia da
libertação.
Interessante é
cotejar a lista dos 100 mais com a esquemática do Prof. Olavo de Carvalho sobre
as três forças que disputam o poder global. O predomínio de ideologias que
favorecem o “esquema globalista” -- entendido como fortalecimento do poder das organizações
internacionais, apoiado na democracia (formalmente), num semi-liberalismo
econômico, e num forte viés secular -- é esmagador.
Em resumo, podemos
concluir que pesquisa traça o perfil da influencia dos principais intelectuais
do mundo, mormente no mundo anglo-saxao. Ela traça o perfil do mainstream. Alem disto, devemos levar em
consideração que ela capta a parcela de influenciados mediamente intelectualizados,
nada dizendo sobre o que pensam as massas. Mas como ressaltamos no inicio do
artigo, por um fenômeno de difusão quase imperceptível, elas ganham
capilaridade, e de alguma forma, passam a compor o imaginário e o universo de crenças
de pessoas simples nos últimos rincões do mundo sem nenhum contato direto com
elas.
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