terça-feira, 1 de abril de 2014

QUEM GOVERNA AS MENTES DO MUNDO SEGUNDO O BIG DATA?


Observo, surpreso,  pessoas simples e sem leitura no interior do Brasil dizendo sobre a rara estiagem deste último verão: é culpa do aquecimento global. Obviamente, não leram isso em jornais, porque não leem jornais. Tampouco tiraram essa impressão da internet, porque não acessam a rede mundial de computadores. A fonte da crença destas pessoas no global warmming como fonte da estiagem é, obviamente, a televisão, atuando de forma quase subliminar, pois, decerto, não prestam atenção a reportagens sobre assuntos como o aquecimento global.

A ideologia aquecimentista adquiriu uma capilaridade fantástica, quase semelhante a da falsa ideia de que o aumento do nível de renda dos mais pobres se deveu, preponderantemente, aos oito anos do Governo Lula, crença a cuja difusão se deve a eleição do pseudópodo luliano.

Está aí demonstrado, na experiência cotidiana, o poder dos próceres desta ideologia, dentre eles Al Gore, que figura em uma pesquisa de 2013 do instituto alemão Gottlieb Duttweiller Institute como o “intelectual” (no sentido Paul Johnson, claro) mais influente do mundo numa lista de 100 (http://www.gdi.ch/de/Think-Tank/Trend-News/Detail-Page/The-global-thought-leaders-2013).

A fonte dos dados da pesquisa não poderia ser melhor nos dias que correm: o Big Data. Leva em consideração o número de menções aos intelectuais nos sites, acadêmicos ou não, na blogsfera, nas redes sociais, ou em publicações impressas divulgadas na rede. Não é possível que, depois das velozes, impactantes e irreversíveis revoluções virtuais da década de 2000, um autor muito influente não seja muito mencionado na web. O Big Data, parece-nos, é o melhor termômetro da influência nas discussões públicas de um autor ou de uma ideia e os critérios da pesquisa deveriam inspirar no Brasil pesquisas semelhantes.

A metodologia da pesquisa, contudo, é precária por 3 motivos: (1) Ela leva em consideração apenas  “infoesfera” de língua inglesa, ou seja, o que foi postado na internet em outras línguas não é levado em consideração; (2) ela mediu a influência de 200 autores pré-selecionados, entrando aí a subjetividade do universo cultural de seus autores e (3) ela não está infensa a popularidade imediata, passageira, de certos autores, embora tenha-se tomado precauções quanto a isto. Diante disto, o mais exato seria dizer que ela mede predominantemente a influência predominante de intelectuais no mundo anglo-saxão e que mede a influência “neste momento” de tais autores.

Contudo, é evidente que os autores mais citados em língua inglesa devem ser, de fato, os mais citados no mundo. Então é muito provável que uma pesquisa que levasse em consideração menções na internet em todas principais línguas do mundo não teria resultado muito discrepante. A pesquisa também não deve ser considerada a mera listagem dos fogos-fátuos do momento.  Isto porque nossa experiência de leitores, na rede ou fora dela, nos mostra que a influência de intelectuais como Slavoj Zizek, Noam Chomsky, Steven Pinker, Daniel Dennet, Richard Dowkins, Stephen Howking não pode ser considerada passageira, coisa de meros quinze minutos de fama fugaz, pois há quanto tempo esses nomes não assomam aos nossos olhos sempre que abrimos uma publicação cultural?

A tabela de divulgação dos autores associa-os à nacionalidade, à área de atuação e à principal ideia defendida em suas obras.

Quanto às nacionalidades, nenhuma surpresa: os anglo-saxões dominam, seguidos pelos europeus continentais. O Brasil não está fora. Tem um surpreendente representante na 44ª. colocação: o confuso cientista político harvardiano  Roberto Mangabeira Unger, que além da ideia de transpor as águas do Rio Amazonas, através de ductos, para o sertão nordestino, defende a “empowered democracy”, seja lá o que isso for. A influência de Mangabeira Unger no Brasil é quase insignificante e seu nome aparece na lista porque ele é um dos poucos brasileiros conhecidos no universo anglo-saxão e por causa dos problemas metodológicos relatados parágrafos acima.

Quanto à área de atuação, predominam os filósofos e cientistas, sejam estes das humanidades (sociólogos, economistas, filósofos e historiadores), sejam das ciências naturais (da Física e das Ciências Biológicas, predominantemente). Das humanidades temos lá: Habbermas, Peter Singer, Slavoj Zizek, Daniel Dennet, Noam Chomsky, Steven Pinker, Eduardo Galeano. Das ciências naturais: Oliver Sachs, Peter Higgs (certamente catapultado recentemente pelo seu bóson), Stephen Howking, Richard Dowkins. Todos cientistas da linhagem tradicional. Defensores de alguma ciência de paradigmas alternativos são poucos, como Rupert Sheldrake, criador da teoria da ressonância mórfica.

Depois dos cientistas, temos meros militantes políticos (poucos), como o próprio cabeça da lista e George Soros. Depois, muitos inventores, inovadores e empreendedores do setor tecnológico: Elon Musk, o sexto da lista, John Craig Venter, do projeto genoma, Raymond Kurzweil, dentre outros.

A literatura está representada por uns poucos, dentre eles Mário Vargas Llosa, Salman Rushdie, e Gabriel Garcia Marques. Surpreende a falta de Paulo Coelho ou de Dan Brown.

No aspecto político parece-nos haver um predomínio de social-democratas, fabianos, defensores do alargamento da democracia ocidental, globalistas, apóstolos do aquecimento global, keynesianos, frankfurtianos, inimigos da supremacia norte-americana. Saltam os olhos os nomes de Habbermas, George Soros,  do próprio Al Gore, de Jeffrey Sachs, de Noam Chomsky, de Nicholas Stern (teórico da economia do aquecimentismo), de Cristina Romer (defensora do novo keynesianismo). Um único revolucionário mais visível, e confuso quanto a seus objetivos, ocupa a quarta colocação: Slavoj Zizek.

Quanto a este, um parênteses. Dissemos que a lista é um termômetro das maiores influências intelectuais, mas nem sempre essa influência é visível. É difícil imaginar, por exemplo, como a teoria complexa e vazada em árduo academiquês de Habbermas possa influenciar movimentos globais organizados, por exemplo. Mas as ideologias de Zizek, embora tão confusas quanto as de Habbermas, tem um caráter mais panfletário, apelam a símbolos aglutinadores de radicalismos contra estruturas globais, e, portanto, podem ser visualizadas em manifestações como o occupy wall street, ou nos black blocks brasileiros. Tanto quanto as teorias de Zizek elas tem objetivos e inimigos vagos como o capitalismo global.

Não se vê na lista neo-cons e libertarians,  ou eurasianos-duguinistas. Isso nos mostra que estas correntes de pensamento político, embora já globais e ganhando força graças à própria rede mundial de computadores, permanecem fora do mainstream ideológico. Por isto parecem-nos ainda impotentes para gerar alguma transformação importante no mundo real, ou para formar grupos de pressão fortes. Digo isso a nível mundial, já que neocons e libertarians, nos EUA, e eurasianos, na Rússia, já são forças consideráveis como grupos de pressão locais.

No campo cultural, predominam correntes de ideias como o new atheism de Dennet e Dowkins, ou aquelas calcadas no evolucionismo, no ecologismo, no naturalismo e  no vegetarianismo. As religiões estão mal representadas. Um único teólogo figura na lista: Hans Kung que consta como católico não enquadrável no mainstream  ideológico do catolicismo, nas correntes tradicionalistas ou em assemelhadas à teologia da libertação.

Interessante é cotejar a lista dos 100 mais com a esquemática do Prof. Olavo de Carvalho sobre as três forças que disputam o poder global. O predomínio de ideologias que favorecem o “esquema globalista” -- entendido como fortalecimento do poder das organizações internacionais, apoiado na democracia (formalmente), num semi-liberalismo econômico, e num forte viés secular -- é esmagador.

Em resumo, podemos concluir que pesquisa traça o perfil da influencia dos principais intelectuais do mundo, mormente no mundo anglo-saxao. Ela traça o perfil do mainstream. Alem disto, devemos levar em consideração que ela capta a parcela de influenciados mediamente intelectualizados, nada dizendo sobre o que pensam as massas. Mas como ressaltamos no inicio do artigo, por um fenômeno de difusão quase imperceptível, elas ganham capilaridade, e de alguma forma, passam a compor o imaginário e o universo de crenças de pessoas simples nos últimos rincões do mundo sem nenhum contato direto com elas.

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