Vou escrever sobre o sonho que tive ontem à
noite. O Ministro Joaquim Barbosa apareceu no meio. Tinha expedido um mandado
para eu cumprir. Eu recebi a Excelência no meu trabalho, que não era o onde
trabalho, mas o puxadinho do quintal da minha infância onde eu sempre brincava.
Tinha um outro sujeito na história, mas não lembro quem era. O Ministro veio até a
mim para me acompanhar no cumprimento do mandado.
Fomos à Brasília de carro.
Não sei para quê ele veio de lá me buscar e voltamos para lá. Ficamos nas
portas de uns prédios vermelhos e marrons esquisitos (não adianta eu querer
descrever. Não dá.). Eu queria ver a praça dos três poderes.
De repente, fomos
até a casa de minha mãe. Era dia chuvoso e escuro. Mas a fachada da casa não
era a da minha casa e o lugar não era nenhum lugar parecido com qualquer outro
onde eu já tenha estado. E o R., meu brother do ensino médio, estava lá na
porta, o cumprimentei, e ele me acompanhou. E entramos. Aí já estávamos na
minha casa. Eu sempre sem graça com o Ministro. Ele tratou minha mãe de Dona
Maria, fez piada, e foi cordial.
Mas logo em seguida estávamos lá fora e o
Ministro se colocou de cócoras e começou a comer barro com feijão e uma água
lodosa no chão. O sonho acabou.
O que isso significa? Nada.
Creio que há sonhos premonitórios. Creio que
há avisos sobrenaturais em sonhos. Creio que sonhos são também manifestações do
subconsciente. Mas este, que era? Uma mera composição surrealista com base em fragmentos
de imagens que recebi estes dias. Tinha lido sobre o Seu Joaquim antes de
dormir. Tinha falado com o R. estes dias.
Mas por que o Ministro se abaixou para comer
barro com feijão? Tem algum gozador dirigindo nossos sonhos?
Mudemos de assuntos. De Ministros a
Demônios.
Eu comprei um livro do Vilém Flusser porque Olavo de Carvalho o tem em alta conta e porque MVC recomendou “A História do Diabo.” Minha mãe, católica praticante, com
segundo grau feito nas coxas, e nenhum livro na cabeça, ficou muito preocupada
com isso na época, mas eu, para despreocupá-la, falei que era a mais pura
bobagem literária, que era só um livro idiota e ficou tudo bem.
Comecei a ler. Larguei. Ontem peguei de novo
e não pude deixar de morrer de rir. Que gozador filosófico danado! Na
introdução, ele começa definindo o diabo: é o pai da história. A história só
existe neste mundo físico, na eternidade não há história. Assim, o diabo é a
força que quer nos manter presos neste mundo. Já Deus é o princípio que quer
nos desvincular dele e nos conduzir para o mundo transcendente. Nada difere do
que prega a Igreja. Vou à diante. Ele então diz que as artimanhas do diabo para
manter-nos neste mundo são os sete pecados capitais. Mas eis que então ele
propõe um hierarquia dos pecados capitais que vai da luxúria à preguiça – o
mais grave segundo ele. Luxúria é o princípio da vida, lust
for life, e preguiça é a desistência dela, quando cessa o impulso vital.
Luxúria e preguiça são os dois principais, os demais são derivados: por
exemplo, a ira deriva da interrupção da luxúria. Mas, bem, em que se baseia
esta hierarquia? O alemão gozador responde:
“A
hierarquia proposta por este livro é puramente acidental, levemente apoiada
sobre a “historicidade” da natureza, e informada por preoconceitos freudianos.”
Caí na risada. Trata-se de um gozador
filosófico. O livro é uma paródia de grandes teorias gerais da história. O tom
é o mesmo com que Machado de Assis descreve o Humanitismo.
Não sei se as demais obras de Flusser tem o
mesmo caráter, mas quanto a este não há dúvidas: gozação filosófica, paródia.
Um livro inteiro só para isso. E muita gente deve ter levado a sério.
Esse tipo de gozação, vinda de um homem
sério e erudito, muito me encanta. Lembra um franciscano holandês de minha
aldeia, amante de botequins e simpatizante do carnaval fora de época, mas homem
de sólida cultura e sermões impactantes, daqueles que puxam a orelha íntima do
melhor dos cristãos. Era calvo, de barbas ruivas e olhos azuis. Sátiro
franciscano, amava os contos do vigário e praticava-os toda páscoa, dizendo,
por exemplo, que o padre da outra paróquia iria sortear um televisor em cores
na próxima missa lá. Nossa aldeia sempre foi muito quente, mas, num dezembro de
calor extraordinário, mandou pregar um cartaz na porta da Igreja: “se vocês
acham que esta cidade é quente, aguardem o fogo do Inferno!” Enquanto eu, que
tinha por volta de 8 anos, me assustava com o cartaz na porta, o gozador de
batina marrom refrescava a garganta com moderadas goladas de chopp no bar ao lado.
Temo que Dante Aligheri colocaria gente como
eu e esse padre naquele lugar cujo nome é melhor não dizer. Quanta gente Dante Aligheri colocou lá, meu
Deus! Até o coitado do Celestino V, precursor de Bento XVI. Para lá eu também
já fui conduzido em sonho, por culpa da gula. Foi mais ou menos assim:
Peri, nosso taberneiro predileto, me levou
até a cozinha do bar em Carangola acenando com o braço (“Vem cá”) e lá me abriu
o alçapão. “Desce”, ele disse. Cai centenas de milhares de quilômetros. O poço
era fundo e interminável, mas dei numa espécie de salão majestoso. “Aquele
homem ali?” Caí de joelhos e disse: “Santo Padre!”
Bento XVI já não se situava mais no
tempo-espaço tal como o conhecemos. Pedi para beijar-lhe a mão, o que me concedeu.
“Glorioso timoneiro!”, eu disse. Em resposta, com olhar sério, o Papa me disse
que eu seria levado ao 3º círculo onde penam os que pela gula foram condenados.
“Mas Papa, me perdoe, você sabe que comprei
seu livro em Aparecida-SP e que sempre falei mal do relativismo, e sempre
comprei paçoquinha no sinal vermelho para ajudar os pedintes, tratando-os com
toda cortesia”. Em vão. Ele tinha uma carta de ordem do Supremo. Adentramos o
3º círculo. Lá penavam os que de cerveja e cigarro tinham abusado enormemente.
Tinham guelras nos pescoços e abriam a boca mostrando a garganta depois de dizer
isto aqui: “Vejam, brotaram-me guelras, vem o médico todos os dias me castigar
com químio.”
O médico chefe, neste momento, chegou. Bento
XVI me alertou: não se deixe ludibriar, ele assume a forma do Dr. Drauzio
Varela, mas é o mesmo que reina no último círculo destas plagas. Satã-Drauzio
Varela era para mim surpreendente, por mais que o nobre médico fosse quase tão
feio quanto.
“Aqui padecem os que no consumo de cerveja e
cigarro foram imoderados. Avisei no Fantástico”, falou o médico das trevas.
Em seguida disse: “vejam!” E após abrir o notebook mostrou no data-show uma cena de abril de 2005, em Roma. Um nobre sacerdote
padecia. Poucos minutos depois, o carmelengo e bateu-lhe três vezes na face com
o martelinho de prata dizendo: “Karol Wojtyla. Karol Wojtyla. Karol Wojtyla.” O
padresinho foi em seguida carregado por anjos para as regiões celestes. Mas o
que Dr. Drauzio queria mostrar não era isto. Apertou o botão REW de seu
data-show, agora transformado em vídeo-cassete, e mostrou-nos a cena que assim
se narra:
Dr. Drauzio adentrava aquele solene quarto
do Vaticano com sua bandejinha de prata (sobre a qual pousavam três seringas
médicas) assoviando como a falsa enfermeira caolha de Kill Bill. E sugeriu ao
Papa agonizante: “A eutanásia, Padre. A eutanásia, Padre.” O Padre fez um gesto
para afastar a bandeja de prata, mas eis que... Bem, não sei quem meteu João
Grilo na história, mas ele apareceu como um romeiro nordestino e interrompeu
Drauzio Varela: “Por que você não pega essa eutanásia e enfia...”
Acabou-se o sonho bruscamente. Assim relatado, prometo ser a última vez que trato em tom jocoso de assunto tão sério.
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