segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A TESE FILOSÓFICA DO DR. BARROSO

O Dr. Luís Roberto Barroso chegou a sua mansão no Rio de Janeiro fatigado após a sabatina no Senado que avaliou se ele é possuidor da reputação ilibada e do notório saber jurídico requeridos para que venha a ocupar uma das cadeiras do Supremo Tribunal Federal. Ainda vestido qual Pontes de Miranda, recostou no divã, dispensando a jacuzzi de costume por ser inverno, e sonhou.

Súbito, estava na mesma sala de audiências do Senado Federal onde há pouco fora interrogado. Ficou estupefato, todavia, ao perceber que, em vez da turba loquaz e agitada de senadores a sua frente, tinha apenas uma figura: o mesmo afável visitante das trevas que aparecera a Ivan Karamazov, vestido como um cavalheiro russo, à moda 1.860, aproximadamente. A figura lhe era familiar, eis que fruto de sua própria construção imaginária ao ler o romance no início da década de 1970, quando ainda frequentava as arcadas de sua faculdade de Direito. Porém, o cavalheiro de longa barba e cabeleira encanecida tinha mais vida, mais tridimensionalidade, definição e brilho, além de uma voz roufenha e sussurrada emprestada ao Colonel Kurtz hollywoodiano, provavelmente. A personagem lhe sorria e ele permaneceu atônito até que notou ao seu lado o Presidente do Senado Federal, curiosamente agora não mais o Sr. Renan Calheiros, mas o próprio Dr. Ulisses Guimarães, pálido e com olheiras acinzentadas sob órbitas encovadas, que anunciou: “Com a palavra o Senador Lúcio Silvério dos Reis.”

“Serei breve, Sr. Presidente.” E então, fitando o interrogado com um sorriso sardônico e segurando com indicador e opositor esquerdo a haste delgada do microfone, arguiu:

- A pergunta é muito curta e direta, Dr. Barroso. Pois bem, dia a dia o seu camelo de erudição e riqueza engorda, então como passará pelo buraco da agulha?

A reação do sabatinado foi de imediata irritação. “ Senhor Presidente, não posso admitir esse tipo de indagação. Não guarda correlação com a minha nomeação ao Supremo. Trata-se de um desrespeito  com minha carreira e minha obra! Um acinte!  Portanto, já me retiro, Sr. Presidente.”

- Dr. Barroso, um momento, ainda não declarei encerrada a sessão. – interveio o colendo presidente do Senado.

Mas Barroso, de forma impávida, ergueu-se para o espanto do vetusto congressista. No divã, o coração no corpo adormecido de Barroso passava a bater com maior frequência. Mas, no sonho, antes de sair da sala, deu meia volta, retornou à mesa e tomou nas mãos uma taça do romannée-conti que estava de modo surreal sobre ela e, num ato desconcertante, a lançou sobre a cabeça do sinistro inquisitor. Repetiu assim o mesmo gesto de Martim Lutero e do próprio Ivan Karamazov.

Saindo apressado da sala do Congresso, interpelou seu motorista: "Que diabo! Aquele velho não tinha morrido em Angra? Mas vamos depressa, já está quase na hora do velório." Simultaneamente, o egrégio Dr. Ulisses, de pé, esbravejava brandindo republicanamente um opúsculo com a mão direita: "Dr. Barroso, é um descalabro! É uma afronta à Carta Magna, à carta da liberdade, dignidade, da justiça social do Brasil!"

Em seguida, como que por teletransporte, o futuro Ministro já estava defronte da Igreja da Candelária. Intrigou-se novamente: estava em pleno funeral do Arqueduque Otto von Habsburgo, ex-delfim do Império Áustro-Húngaro, mas no Rio de Janeiro! A cena era a recordação de um documentário assistido na televisão germânica há alguns anos. Nela, a porta da Igreja estava fechada e uns monges capuchinhos tentavam ingressar com o esquife imperial. Seguiu-se um diálogo entre os que estavam dentro e os que queriam entrar:

- Quem pretende entrar?

- O Imperador da Áustria; antigo Príncipe da Coroa da Áustria-Hungria; Príncipe Real da Hungria e da Boêmia, da Dalmácia, Croácia, Slavônia, Galícia, etc.[i]

- Não o conhecemos.

-Dr. Otto von Habsburgo – e em seguida fizeram um longo inventário das conquistas políticas e intelectuais do cadáver ilustre.

- Não o conhecemos. – E por fim o último apelo:

- Otto, apenas um homem, mortal e pecador, no mesmo caixão de cipreste do Sr. Wojtila!

-Então ele pode entrar.

Mal recomposto do espanto ante a cena absurda, Dr. Barroso viu um saltimbanco assomar na sua frente. Dançava com os dois braços semi-erguidos, as mãos espalmadas para o alto e ora pisando com o pé direito, ora com o esquerdo. Era inequivocamente o Chicó d’O Auto da Compadecida, mas tinha a cara de um sobrinho seu em idade colegial. Falou o histrião: “O imperador cumpriu sua sentença, encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a Terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre...” A memória profunda de Barroso conhecia a passagem do dramaturgo pernambucano de cor.

Dr. Barroso aborreceu-se mais uma vez e deu meia-volta para retirar-se. O intruso, porém, insistiu: “Dr., um momento! E’ verdade que a pálida morte toca com o mesmo pé os casebres dos pobres e as torres dos ricos, já sabiam os antigos, mas só as potestades que sabem se tornar miseráveis na hora mais lacrimosa, como o Dr. Otto, serão admitidas no interior da Candelária Celeste.”  Barroso resmungou, dando as costas a Chicó: “Só me faltava essa, o vagabundo de Suassuna citando Horácio!”

Um segundo depois, em sua mansão leblônica, despertou o futuro Ministro do Supremo. Era já advogado e parecerista milionário, se tornaria logo um dos homens mais poderosos da República, aplacando de vez a sua sede de nomeada, mas possuía também ambições filosóficas. Esfregando então os olhos, falou à esposa com o mesmo sorrisinho do famoso busto de Voltaire:

- Amor, já tenho um tema para a tese de filosofia pura que pretendo desenvolver:  “A Impossibilidade Ontológica da Origem Sobrenatural dos Sonhos.”

















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