Condenado em primeiro grau, o
réu K. usou do seu direito ao duplo grau de jurisdição e apelou para o Tribunal
de Justiça do Estado de Minas Gerais, perdendo também ali a sua causa. Apelou
então para o Superior Tribunal de Justiça e também lá teve seu recurso especial
negado. Foi então ao Supremo Tribunal Federal, mas instância constitucional,
mais uma vez, não deu provimento ao seu recurso.
K, todavia, não desanimou, e
com seu advogado, Dr. Ricardo Leandro, embarcou para Caracas a fim de
protocolizar recurso perante Corte Interamericana de Justiça. Mais uma vez em
vão. Mas seu caso era de repercussão mundial, então embarcou para Genebra,
tinha esperanças que a Corte Interamericana de Justiça lhe fizesse justiça, mas
a corte mundial, por um placar apertado, e após dezesseis horas de discussão,
manteve a condenação.
Era o fim? Pensam que desistiu?
Não, nunca desistiria, jamais retrocederia. Ainda lhe restavam instâncias a que
apelar. As instâncias apelatórias
cresceram em número após a descoberta de vida em outros planetas e a
criação dos Tribunais Interestrelares e Integaláticos. O réu K. comprou
passagem então na Star Trek Eleven e rumou na velocidade da luz até o Planeta
de Hubble, situado Constelação de Órion, Via Lactea, sede do TRIES-1 (Tribunal
Interestrelar-1). O advogado terrestre substabeleceu a procuração a um advogado
alienígena. O réu tinha esperanças de que os julgadores interestrelares, vidas
inteligentes de diversos planetas extrasolares, reunissem mais inteligência e justiça
que os julgadores terráqueos (aliás nenhum terráqueo havia sido nomeado para
compor as 3.751 cadeiras daquele tribunal).Veio então o acórdão extraterrestre.
Mais uma derrota.
-
Desista, meu caro, volte para a Terra, cumpra a sua pena, ainda é jovem.
Aconselhou-lhe o amigo Lucke Skywalker.
O réu
esteve mesmo a ponto de desistir neste ponto, pois seria vão recorrer
novamente, a sua culpa parecia mesmo inconteste. Mas à noite, já de malas
prontas, foi acordado por seu aliendvogado, um alienígena cor magenta do
Planeta de Howking, que fez fama e carreira promovendo causas de terráqueos
junto aos tribunais interestrelares. Ofegante, veio o douto causídico sideral
contar a boa nova:
-Descobri um dissídio
jurisprudencial, entre o TRES-1 e o TRIES-42.336.811. Julgado no
TRIES-42.336.811 tu terias absolvição indubitável, meu caro. É justa causa para
um Recurso Especial Interestrelar! Vamos ao Superior Tibunal da Galáxia!
O Egrégio STG era uma
tribunal compostos por vetustos alienígenas com mais de 900 anos, muito probos
e de intergalaticamente notório saber jus-galático. A jurisprudência do STG era
exemplar e servia de modelo para diversos STG’s do Universo. Mas havia um dado
que contava desfavoravelmente para o nosso incansável K.: a maioria dos 721
ministros do STG eram provenientes do TRIES-1 e, obviamente, compactuavam da
visão jurisprudencial daquele tribunal interestrelar. A isto o ilustre
procurador não havia dado atenção ao convencer nosso réu a viajar tantos anos
luz até o coração da Via Lactea para ser julgado. Conservaram porém as
esperanças até o voto de desempate de Sua Excelência o Presidente do STG, que,
não sem algum suspense, negou provimento ao recurso especial, para a fúria do
aliendvogado que, no fim da sessão, franziu as barbatanas posteriores de sua
cabeça e bradou dando um murro com sua mão de 20 dedos :
-
INCOSMICOCONSTITUCIONALl!
-
O que? – indagou surpreso o réu.
-
A decisão viola preceitos da CONSTITUIÇÃO DO COSMOS! Viola a Magna
Carta do Universo que tudo rege, tudo governa e estrutura toda a existência,
outorgada por DEUS PAI TODO PODEROSO, desde o Gênesis.
-
O Que isso quer dizer? – indagou K. desanimado.
-
Quem dizer que amanhã mesmo partimos para a Galáxia de Andrômeda, sede
do SUPREMO TRIBUNAL CÓSMICO. Temos um Recurso Cósmico-Extraordinário!
K. precisaria de mais de dois milhões de anos para
chegar até a Nebulosa de Andrômeda, mas pegaram um atalho num “buraco de
minhoca” e em 114 anos chegaram às escadarias de irídio enriquecido do STC.
Era a chance de ouro do
aliendvogado mais brilhante da Via Lactea abrir caminho para o patrocínio de
demandas cósmicas. Usou então naquela sessão toda a sua sabedoria jus-cósmica,
toda a sua verve retórica, todo o seu arsenal de argumentos preliminares e de
mérito nos seu 7 anos de sustentação oral. O tribunal era composto dos 11
homens mais juridicamente sábios do universo e, surpreendentemente, chefiado
por um terráquio, o patriarca Abraão,
que ao contrário do que pensavam os judeus não morrera, mas fora
abduzido no século XIX A.C. por um
demiurgo astronauta analista judiciário cumpridor de mandados, ex vi de uma decisão de ofício de Deus
Pai Todo Poderoso, para integrar o mais colendo dos tribunais do Universo. Foi
dele o voto de desempate.
Mais uma derrota.
O eternamente sucumbente K.
quedou em sua cadeira fatigado. Pensou em deixar a causa transitar em julgado.
O aliendvogado, porém, veio até a ele, pousou a mão em seu ombro e falou
baixinho em seu ouvido:
-
Vamos apelar a Deus. A Instância Metafísica Máxima.
Deus-Pai-Todo-Poderoso!
-
Ah sim, finalmente, isso já se arrasta há duas centenas
de anos, então o que Deus decidir está decidido. Depois pago seus honorários e
não interpomos mais nenhum recurso. Nom
plus ultra.
-
Mas mesmo após a decisão divina ainda há algo a fazer, meu caro...
-
O quê!? Você está louco?
-
Não. Podemos entrar com embargos de declaração, por exemplo. Deus nem
sempre é muito claro em suas intenções.
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