Pedro Sette Câmara lançava outro dia em seu blog a ideia de que
o caráter estereotípico atual de cariocas e paulistas advém da classe social
dominante na origem de seus respectivos estados. O Rio de Janeiro era a sede do
Império e, portanto, estava repleto de aristocratas, que viviam para serem
servidos e não precisam comer o pão com o suor do próprio rosto, daí os
cariocas serem tão folgazões, espontâneos, cheios de si, ávidos por admiração,
orgulhosos, além de um tanto perdulários. São Paulo foi construída por
burgueses, do café e da indústria. Por isso são sérios, racionais, austeros,
disciplinados, diplomáticos, eficientes, cuidadosos.
Inspirado nisso, penso como eu poderia tirar a origem histórica
do estereótipo mineiro: o do sujeito acanhado, desconfiado, avesso a riscos e
aventuras, tradicional, cordial, conciliador. A explicação parece clara: o
nosso mito fundador, a Inconfidência Mineira.
Até ela, o mineiro não era nada do que descrevi acima. Filhos
dos desbravadores bandeirantes, constituíram aqui o centro da economia do
Brasil no século XVIII e fizeram da região mineradora um centro de vanguarda
econômico e de ideias. Foram os primeiros a pensarem na independência, anelavam
o livre mercado e planejavam até a implantação de indústrias, sob a inspiração
do conjurado José Álvares Maciel, que estudara mineralogia na Europa e tivera
contato com Thomas Jefferson.
De repente, quando as ideias independentistas ainda estavam em
formação, sem um projeto bem planejado, o grupo é traído e a reação da soberana
de Portugal, Dona Maria I, louca, é brutal e aterradora. Condena todos ao
exílio e Tiradentes, o bouc emissaire
mais célebre da nação, é posto na forca, decapitado e esquartejado, sua cabeça
pendurada em poste em praça pública, seus membros em cada uma das saídas da
cidade, sua decedência amaldiçoada, sua casa derrubada e o terreno salgado para
que nada nele nascesse. Ai morreu o espírito desbravador mineiro. Um trauma
profundo nasceu ali. Todos ficaram cheios de medo e desconfiados de que alguém
como o Silvério os traísse. Passaram a abominar qualquer radicalismo, temendo a
repressão brutal. Tornaram-se tradicionais e avessos a aventuras, e estas
poderiam resultar em nova tragédia. Calaram-se. Passaram a temer ideias
inovadoras, extravagantes. Tornaram-se também conciliadores, buscando agradar a
todos e não contrariar ninguém*. Depois
veio a decadência da exploração aurífera e a debandada para a Mata, onde se
tornaram ainda mais taciturnos, desconfiados, tradicionais, rústicos, duros,
inflexíveis, drummondianos e melancólicos.
O mineiro da mata é ainda mais deprimente. Semelhante ao caboclo
paulista, era “o sombrio urupê de pau pobre a modorrar silencioso no recesso
das grotas” (Monteiro Lobato). “Rústico, inflexível, desconfiado, precavido,
rotineiro, sistemático, teimoso, prepotente”, assim o definia o historiador
Paulo Mercadante, mineiro da mata, que cedo cedo deu um jeito de desaparecer
desse ambiente sufocante. Um ancestral querido era essa descrição encarnada. Doente,
no fim da vida, era calado e achava que os outros não precisavam compartilhar
de seu sofrimento. Ia dormir longe da mulher para não incomodá-la com o ruído
dos escarros de sua garganta ferida. Quando morreu, foi sozinho para o hospital
de ônibus em de uma cidade vizinha. Passou a vida taciturno e arredio, não fez
grande ousadias e fugiu de façanhas. Curava a melancolia com pinga. Teve filhos
mais ousados, que ganharam o mundo, porém que lhe herdaram a cabeça dura e a
inflexibilidade, e ao que tudo indica, voltam para morrer na mesma grota.
As cidades do interior criaram um clima então pesado e rústico
demais de onde sempre saem espíritos revoltados, mas tem que fugir dali para
uma destino mais aberto a sua rebeldia, como fizeram mineiros como Zé Dirceu,
Frei Betto, Fernando Gabeira, Dilma Rousseff, nos anos 1960.
*A tática conciliadora de tomar a sopa pelas beiradas deu certo,
pois nossos conciliadores lograram desviar para suas terras ao longo das
décadas a maior parte do orçamento federal, de modo que o Estado possui, por
exemplo, uma quantidade de Universidades Federais superior a de qualquer outro
ente da federação. Um estudo sociológico de Simon Shwartzman, mineiro, mostra
como na primeira república nossos conciliadores mandavam no orçamento federal,
enquanto o paulista trabalhava para pagar impostos que sustentavam a nação.
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