segunda-feira, 30 de setembro de 2013

SOCIOCARACTEROLOGIA DO MINEIRO - BREVE ENSAIO DE SOCIOLOGIA DAS IMPRESSÕES

Pedro Sette Câmara lançava outro dia em seu blog a ideia de que o caráter estereotípico atual de cariocas e paulistas advém da classe social dominante na origem de seus respectivos estados. O Rio de Janeiro era a sede do Império e, portanto, estava repleto de aristocratas, que viviam para serem servidos e não precisam comer o pão com o suor do próprio rosto, daí os cariocas serem tão folgazões, espontâneos, cheios de si, ávidos por admiração, orgulhosos, além de um tanto perdulários. São Paulo foi construída por burgueses, do café e da indústria. Por isso são sérios, racionais, austeros, disciplinados, diplomáticos, eficientes, cuidadosos.

Inspirado nisso, penso como eu poderia tirar a origem histórica do estereótipo mineiro: o do sujeito acanhado, desconfiado, avesso a riscos e aventuras, tradicional, cordial, conciliador. A explicação parece clara: o nosso mito fundador, a Inconfidência Mineira.

Até ela, o mineiro não era nada do que descrevi acima. Filhos dos desbravadores bandeirantes, constituíram aqui o centro da economia do Brasil no século XVIII e fizeram da região mineradora um centro de vanguarda econômico e de ideias. Foram os primeiros a pensarem na independência, anelavam o livre mercado e planejavam até a implantação de indústrias, sob a inspiração do conjurado José Álvares Maciel, que estudara mineralogia na Europa e tivera contato com Thomas Jefferson.

De repente, quando as ideias independentistas ainda estavam em formação, sem um projeto bem planejado, o grupo é traído e a reação da soberana de Portugal, Dona Maria I, louca, é brutal e aterradora. Condena todos ao exílio e Tiradentes, o bouc emissaire mais célebre da nação, é posto na forca, decapitado e esquartejado, sua cabeça pendurada em poste em praça pública, seus membros em cada uma das saídas da cidade, sua decedência amaldiçoada, sua casa derrubada e o terreno salgado para que nada nele nascesse. Ai morreu o espírito desbravador mineiro. Um trauma profundo nasceu ali. Todos ficaram cheios de medo e desconfiados de que alguém como o Silvério os traísse. Passaram a abominar qualquer radicalismo, temendo a repressão brutal. Tornaram-se tradicionais e avessos a aventuras, e estas poderiam resultar em nova tragédia. Calaram-se. Passaram a temer ideias inovadoras, extravagantes. Tornaram-se também conciliadores, buscando agradar a todos e não contrariar ninguém*.  Depois veio a decadência da exploração aurífera e a debandada para a Mata, onde se tornaram ainda mais taciturnos, desconfiados, tradicionais, rústicos, duros, inflexíveis, drummondianos e melancólicos.

O mineiro da mata é ainda mais deprimente. Semelhante ao caboclo paulista, era “o sombrio urupê de pau pobre a modorrar silencioso no recesso das grotas” (Monteiro Lobato). “Rústico, inflexível, desconfiado, precavido, rotineiro, sistemático, teimoso, prepotente”, assim o definia o historiador Paulo Mercadante, mineiro da mata, que cedo cedo deu um jeito de desaparecer desse ambiente sufocante. Um ancestral querido era essa descrição encarnada. Doente, no fim da vida, era calado e achava que os outros não precisavam compartilhar de seu sofrimento. Ia dormir longe da mulher para não incomodá-la com o ruído dos escarros de sua garganta ferida. Quando morreu, foi sozinho para o hospital de ônibus em de uma cidade vizinha. Passou a vida taciturno e arredio, não fez grande ousadias e fugiu de façanhas. Curava a melancolia com pinga. Teve filhos mais ousados, que ganharam o mundo, porém que lhe herdaram a cabeça dura e a inflexibilidade, e ao que tudo indica, voltam para morrer na mesma grota.

As cidades do interior criaram um clima então pesado e rústico demais de onde sempre saem espíritos revoltados, mas tem que fugir dali para uma destino mais aberto a sua rebeldia, como fizeram mineiros como Zé Dirceu, Frei Betto, Fernando Gabeira, Dilma Rousseff, nos anos 1960.

*A tática conciliadora de tomar a sopa pelas beiradas deu certo, pois nossos conciliadores lograram desviar para suas terras ao longo das décadas a maior parte do orçamento federal, de modo que o Estado possui, por exemplo, uma quantidade de Universidades Federais superior a de qualquer outro ente da federação. Um estudo sociológico de Simon Shwartzman, mineiro, mostra como na primeira república nossos conciliadores mandavam no orçamento federal, enquanto o paulista trabalhava para pagar impostos que sustentavam a nação.



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