segunda-feira, 30 de setembro de 2013

UM EMBAIXADOR NA ZÂMBIA

Há um membro ateu militante no Ministério Público da União, aquele mesmo que quer proibir o uso da menção a Deus nas notas de real. O Ministério Público da União é talvez o órgão do Poder Judiciário mais infestado de doentes ideológicos. Ganhou nota do maior blogueiro político do país a história do DRMP que queria proibir a veiculação da novela “Escrava Isaura” por apologia do racismo. Mas este recém inaugurado blog “político” não tem a intenção de tecer críticas a estes senhores. Sua função é tratar dos assuntos de Estado de uma perspectiva idiossincrática. Por isso dedicarei este post a uma figura real, que jamais conhecerão, e que talvez nem exista, sobejamente mais interessante, o Dr. C.

O Dr. C. foi o único Promotor de Justiça darwinista social que conheci. A maioria dos membros do Ministério Público e da Magistratura sequer sabem o que é darwinismo social. Na maioria das vezes dirão: “ah, aquele negócio que a gente estuda na História pro vestibular, né?” Mas também não sei mesmo se o Dr. C. assim se classificaria. O fato é que acreditava, como Euclides da Cunha (que deve ter achado muito bem feito a extinção daquela raça de degenerada de cangaceiros cabeças-chatas hérculos-quasímodos de Canudos algo muito natural e desejável) no mito da superioridade das raças. Acreditava discretament e confesava só para os íntimos, sempre com pilhéria. Por óbvio, afinal, bastava um deslise para que o art. 5., XLII, da Constituição Federal acabasse com a sua carreira e com a sua vida rapidamente.

Doutor C. também não advoga a supressão violenta ou segregação das raças inferiores como Karl Marx, apenas que a supremacia social de certas raças deveria ser encarada como algo natural, fato da evolução, e que, portanto, políticas de cotas, por exemplo, iriam contra às leis da própria natureza, devendo ser desestimuladas pelo bem do florescimento de uma sociedade mais civilizada, culta, organizada e materialmente exuberante.

Quando lhe trazíamos um exemplum in crontrario, como o do Anjo Negro Vingador do Mensalão, ou do homem que está para os EUA como a Miranda de Dark Night Rises está para Gothan, na realização dos sonhos de destruição do pai (vide Dinesh D’Souza), ele vinha com uma velhíssima escusa que vem do tempo de nossos tetravós coronéis: “mas estes são da canela fina.” Parênteses:  É de nossos tetravós também a esquecida: “preta para trabalhar, mulata para fornicar, mulher branca para casar.” Mas não vamos dar uma de Florestan, preferimos o Gilbertão, esse nosso bom-vivant sociólogo fornicador que descobriu o mito da moura encantada, mito este que, se nos Quinhentos era um propriedade de portugueses, agora é um mito eminentemente holandês e alemão (Copabana).

A idéia das canelas finas sugeria uma ideia de gradação e de matizes raciais. Outro exemplo que nos dava: aqueles angolanos que emporcalharam de mexirica o prezídio no livro/filme do João Estrela causaram náuseas aos nossos bons mulatos, Seus Jorges e Cias, o que mostra a evolução destes últimos.

Eu tentava contraditá-lo: “mas Doutor? Isso tudo é antes uma questão cultural que racial ou genética.” Nestes momentos ele só respondia com um esgar de desprezo e um “Quê?”

Mas eu flagrava bem qual era o do Doutor. No fundo, ele era um wunderblog do Ministério Público. Todo o seu pseudo-racismo provinha do gosto pelo refinamento. Era sujeito colecionador de relógios caros, vinhos de quatro dígitos, com gostos dandistas exóticos como o de viajar cerca de 200 Km até a capital para comprar polvo para o almoço do dia seguinte, gestos aristocráticos, e uma propensão incansável pelo cultivo do intelecto. Era ainda um bibliófilo. A obra preferida era “Ascenção e Queda do Terceiro Reich” do Shirer. Compartilhava daquela admiração estética pelo Terceiro Reich.

 C. era sujeito que, depois de uma viagem à Europa, retornava para seus misteres públicos na cidade do interior para o combate aos pequenos furtos e traficâncias (gostava de ditar denúncias de pé para seus assistentes sobre apreensões de bucha de maconha cantando Bezerra da Silva e andando de um lado para o outro), para guerra aos pequenos espancadores de mulher, para os pareceres em causas de revisão de pensão alimentícia, para o desvio do leitinho das crianças por insignificantes prefeitos analfabetos, cheio de spleen, nauséé, acídia, ennui, enfado, tédio, boredom, que só o bordeaux e e uns comprimidos tarja preta, seus emplastos anti-melancolia, poderiam aplacar. Certa feita, resumiu tudo isto com a frase: “sou um embaixador na Zâmbia.”

A acídia que menciono no parágrafo anterior explica mais um traço característico seu. Compartilhava da weltanschauung shopehaureana. “Já leu Nietsche, Heiddeger? Devia, menino”, me aconselhou um dia. Não acreditava naquela Nova Jerusalém, por isso anseava por um jardim de delícias refinadas aqui mesmo. Mas ia a missas e tinha uma simpatia singela por quermesses.

Contudo, um dia me confessou uma história. Num fim de mundo qualquer onde exercia seus misteres públicos no início da carreira, uma mulher negra miserável (tempos pré bolsa família talvez) catava objetos num lixão com os filhos. O mais novo dos meninos descalços achou uma garrucha velha no meio dos dejetos e sem saber muito o que fazia apertou o gatinho matando o mais velho. C. investigou o caso. Impressionou-se muito com o caldal de lágrimas que aquela mulher maltrapilha, com um lenço na cabeça típico de lavadeiras de interiores muito pobres, vertia no interrogatório. Passou algumas noites em claro após o episódio. Durante seu relato, notei que ele relutava para que seus olhos marejados também não vertessem um fio de lágrima. Naquela ocasião, notei que, por baixo ou bem atrás do véu de ideias meramente estéticas darwinistas sociais e shopehaureanas, havia nele o fundo de um humanismo cristão. E o fundo é tudo o que importa, as ideologias eram só espuma. Coisas que os politicamente corretos jamais compreenderão.

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